Author Archives: Francisco

Promessas no design de moda português

“Sangue Novo” e “Bloom”. Dois even­tos a reter se qui­ser­mos dei­tar o olho e a pai­xão a novos talen­tos a fer­vi­lhar em ter­ras lusas. Organizadas pela ModaLisboa e pelo Portugal Fashion, res­pe­ti­va­mente, estas duas mos­tras acon­te­cem em par­ce­ria com esco­las que apos­tam na pra­ti­ci­dade, na expo­si­ção e no lan­ça­mento dos alu­nos que apre­sen­tam um grande poten­cial. Teresa Carvalheira, O Simone, Catarina Oliveira e Cristina Oliveira cap­ta­ram a aten­ção da Parq e assim cons­ti­tuem a sele­ção de talen­tos pro­mis­so­res desta publicação.

Teresa Carvalheira, de Lisboa, formou-​​se no Modatex e tra­ba­lha, con­ce­tu­al­mente, ligada à forma, ao movi­mento, à expres­são do corpo, do género e da iden­ti­dade individual.

O Simone, pro­jeto apre­sen­tado no Bloom, resulta de uma ideia cri­ada na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em par­ce­ria com o MUDE. Este é um pro­jeto com uma expres­são gri­tante, que conta a mulher e a cul­tura por­tu­guesa com um toque de auten­ti­ci­dade e inovação.

Catarina Oliveira, nas­cida em Viana do Castelo, apresenta-​​se no Sangue Novo com um tra­ba­lho que reflete a com­ple­xi­dade das for­mas, a meta­mor­fose dos con­cei­tos, a liber­ta­ção do instaurado.

Cristina Real foi aluna do Modatex e dá car­tas no Sangue Novo. O tra­ba­lho da desig­ner é ins­pi­rado nas men­tes e nos cor­pos que espe­ram ser com­ple­tos por diver­sos ele­men­tos com­ple­xos e sim­ples. As tex­tu­ras e a dico­to­mia textura/​cor são uma grande mais-​​valia deste projeto.

Texto Ana Margarida Meira

Fotografia: Ana Luísa Silva

Realização: Tiago Ferreira

Assistente: Maria Féria

Maquilhagem: Sandra Alves

Manequins: Rodrigo Braz e Klisman Rodrigues @ wearemodels

 foto 1 O Simone (Fernando Domingues) e Teresa Carvalheira

Fernando Domingues e Teresa Carvalheira com t-​​shirts CRIMINAL DAMAGE

foto 2 Cristina Real e Catarina Oliveira

Cristina Real com t-​​shirt CRIMINAL DAMAGE, sapa­tos ALEXANDRA MOURAGOLDMUD

foto 3 Busto com cri­a­ção de O SIMONE e mane­quim com cri­a­ção de Teresa Carvalheira

foto 4 Manequim com cri­a­ção de Catarina Oliveira e busto com cri­a­ção de Cristina Real

 

FKA twigs, Soul do futuro

A bri­tâ­nica FKA twigs tem em LP1 uma estreia de sonho que ao mesmo tempo a impõe com estrondo no pre­sente e lhe deixa as por­tas do futuro escancaradas.

Formerly Known As twigs. É esse o sig­ni­fi­cado das ini­ci­ais no nome artís­tico de Tahliah Debrett Barnett, 26 anos, filho de pai jamai­cano e de mãe inglesa com san­gue espa­nhol. Mas este bilhete de iden­ti­dade com mapa gené­tico não escla­rece nada sobre o mis­té­rio que rodeia FKA twigs. Não que a voz de “Water Me” faça algum tipo de esforço para pare­cer ou soar mis­te­ri­osa mas, por­que a sua música parece, no essen­cial, vir de um lugar ainda não explorado.

twigs, assim mesmo, em minús­cu­las, é uma alcu­nha ganha no mundo da dança. Antes de se assu­mir como can­tora, twigs par­ti­ci­pou em alguns vídeos de artis­tas como Kylie Minogue ou Jessie J e terá sido, pro­va­vel­mente, num qual­quer inter­valo de roda­gem que ganhou a sua alcu­nha, ao esta­lar as suas arti­cu­la­ções como se fos­sem ramos secos. Essa expres­si­vi­dade física mantém-​​se em palco, onde twigs parece can­tar com o corpo inteiro, como se pro­je­tar a voz fosse para si uma espé­cie de tor­tura, que a obriga a contorcer-​​se.

A adi­ção da sigla FKA ao seu nome acon­te­ceu para evi­tar ser con­fun­dida com uma artista homó­nima. Olhando para a capa do seu álbum de estreia, no entanto, não se per­cebe como houve alguma vez o risco de a con­fun­di­rem com quem quer que fosse…

O band­camp foi a pri­meira pla­ta­forma que FKA twigs usou para mos­trar ao mundo a sua música, asso­ci­ando um vídeo a cada um dos temas onde explo­rava ideias algo sur­re­ais, afir­mando logo aí a dife­rença num mundo de hiper-​​realismo digi­tal. Seguiu-​​se EP2, lan­çado em 2013 pela Young Turks.

A ali­ança da voz de twigs com as pro­du­ções de Arca pro­vou ser ven­ce­dora, colo­cando o futuro aos pés desta can­tora pela via da nome­a­ção para pré­mios, inclu­são em lis­tas de mai­o­res pro­mes­sas, etc. Tudo per­fei­ta­mente jus­ti­fi­cado: a música extra­or­di­ná­ria de Arca (pres­tes a estrear-​​se em nome pró­prio com um lan­ça­mento na Mute) pro­cura novos mun­dos, sendo pro­fun­da­mente tex­tu­ral e ser­vindo dessa maneira na per­fei­ção na voz de twigs. Natural, por­tanto, que Arca surja de novo na ficha téc­nica de LP1 ao lado de uma série de outros pro­du­to­res, incluindo o uber-​​hitmaker Paul Epworth (homem com toque de Midas que tem no cur­rí­culo nomes como Adele, Coldplay ou U2!). Mas mesmo tendo em conta esses dois extre­mos do uni­verso da pro­du­ção — um com um lap­top, outro com alguns dos melho­res estú­dios do mundo à dis­po­si­ção -, LP1 soa pro­fun­da­mente coeso, o que atesta que o ele­mento deci­sivo aqui é mesmo a visão de twigs.

É difí­cil per­ce­ber as refe­rên­cias desta música e deve­mos resis­tir à ten­ta­ção, suge­rida pela capa, de com­pa­rar twigs a Bjork, mesmo tendo em conta a par­ti­lha de inte­res­ses no uni­verso da elec­tró­nica mais desa­fi­ante. twigs vem do uni­verso do R&B mutante, que tem gerado pro­pos­tas tão dife­ren­tes como The Weeknd ou James Blake, mas é nítido que ouviu musas como Kate Bush ou Liz Fraser. E mesmo se as letras não são as mais pro­fun­das, a entrega gutu­ral, física e até inte­lec­tual garante que a nossa aten­ção é man­tida refém da voz de FKA twigs : sus­sur­rada, sonhada, plena de sen­su­a­li­dade em cima de uma música que se faz de ecos, ruí­dos, far­ra­pos de melo­dia, rit­mos que­bra­dos, tex­tu­ras elec­tró­ni­cas per­tur­ba­do­ras. Como se a base ins­tru­men­tal tivesse che­gado às mãos de twigs vinda de outro pla­neta. Ou do futuro…

Texto de Rui Miguel Abreu

DocLisboa – Mais do que documentário, mais do que cinema

DocLisboa – Festival Internacional de Cinema invade entre 16 e 26 de Outubro a cidade com 250 fil­mes, entre os quais, 40 estreias mun­di­ais ou inter­na­ci­o­nais. Uma aná­lise a um Mundo com­plexo — onde o racismo, os regi­mes dita­to­ri­ais e capi­ta­lis­tas, o geno­cí­dio e a guerra (ainda) con­tra­ce­nam com a música, a pin­tura, o tea­tro, o club­bing e outros domí­nios que, em con­traste, a mui­tos de nós, nos des­per­tam uma sen­sa­ção de frivolidade.

Com a par­tida do fin­lan­dês Peter von Bagh em setem­bro, com a exi­bi­ção de “Muisteja/​Remembrance” e, na ses­são de encer­ra­mento, “Socialism”, esta 12.ª edi­ção será a si dedicada.

Em modo retros­pec­tiva, o fes­ti­val glo­ri­fica o Neo Realismo e a obra do rea­li­za­dor holan­dês Johan Van Der Keuken. Não se esquece do pas­sado, mas a ver­dade é que o pre­sente tam­bém não é menos­pre­zado. Antes pelo con­trá­rio, é invo­cado em Secções como o “Cinema de Urgência” e abre espaço a novos ou não tão novos valo­res nas Secções de Competição de cur­tas e lon­gas por­tu­gue­sas e internacionais.

Viagem no pro­grama e des­cu­bram e repen­sem um Mundo que, para mais estra­nho que pareça, é o nosso. Em pro­jec­ção na Culturgest, Cinema São Jorge, Cinema City Campo Pequeno, Cinemateca Portuguesa, Cine-​​Teatro da Academia Almadense, Museu da Electricidade, Cinema Ideal, Galeria Palácio Galveias e no clube Lux Frágil.

Um fes­ti­val que mais do que glo­ri­fi­car o docu­men­tá­rio ou, num sen­tido mais lato, o cinema; pro­move um cami­nho para a mudança!

Texto de Marcelo Magalhães

www.doclis­boa.org

 

 

PULP: A Film About Life, Death & Supermarkets.

Os Pulp mudam-​​se para Londres à pro­cura de sucesso. Alcançam fama mun­dial, nos anos 1990, com hinos como Common People, Disco 2000 e Babies. Em 2012, Florian Habicht, rea­li­za­dor de cinema, acom­pa­nhou o regresso da banda a Sheffield para o seu último con­certo no Reino Unido. Fazendo a melhor inter­pre­ta­ção da car­reira em exclu­sivo para o filme, a banda par­ti­lha pen­sa­men­tos sobre fama, amor, mor­ta­li­dade e manu­ten­ção automóvel.

 

LUX /​Doc Lisboa’14

Pulp – A Film About Life, Death and Supermarkets, filme de Florian Habicht 2014 /​ REINO UNIDO /​ 90’

23 de Outubro às 23h00

Os Alfaiates Africanos de Lisboa

Quando per­gun­tei a Sofia Vilarinho, a desig­ner que está por detrás do pro­jecto “Os Alfaiates Africanos de Lisboa”, o que a ins­pira, ine­vi­ta­vel­mente, a res­posta que obtive foi: “o silên­cio. E as pes­soas éti­cas.” Esta afir­ma­ção surge-​​nos como um espe­lho cris­ta­lino da sua visão, do seu “ser” e dos pro­je­tos aos quais dedica alma e cora­ção. Nasceu Sofia e criou-​​se Vilarinho.

O pro­jeto Atelier Alfaiates Africanos surge como resul­tado de uma vasta pes­quisa que Sofia Vilarinho faz para a tese de dou­to­ra­mento sobre a capu­lana de Moçambique. Estende a mão pela luta con­tra as ideias pre­con­ce­bi­das, con­tra os man­tras ine­fi­ca­zes e as men­tes fecha­das. Moçambique é um ponto a reter. Tal como o seu povo.

O AAA é uma marca social com o obje­tivo de inclu­são social de alfai­a­tes afri­ca­nos imi­gran­tes, ao sali­en­tar a pri­ma­zia mate­rial e a cate­go­ria téc­nica patente nas peças des­tes pro­fis­si­o­nais. Atualmente, com uma equipa de 16 alfai­a­tes, e com pre­vi­sões de ser um número cres­cente, Sofia explica-​​nos que exis­tem ainda as ver­ten­tes de for­ma­ção e de comer­ci­a­li­za­ção, em par­ce­ria com a Modatex e com a AMA (Associação Moda Africana em Lisboa), res­pe­ti­va­mente.

O pro­jeto Atelier Alfaiates Africanos é um abrir de olhos e de cons­ci­ên­cias para uma rea­li­dade dife­rente, que pre­cisa de ser revi­ta­li­zada, pro­fis­si­o­na­li­zada e apoi­ada. Cada alfai­ate incluído no pro­jeto, dedica o seu conhe­ci­mento e a sua habi­li­dade manual aos teci­dos afri­ca­nos com que tra­ba­lha (wax-​​print da West Africa, capu­la­nas de Moçambique, kan­gas da Tanzânia, entre outros materiais).

Acima de tudo este pro­jeto fez-​​me per­ce­ber a supre­ma­cia Europeia e mani­fes­tar a neces­si­dade da cons­tru­ção de diá­lo­gos de conhe­ci­mento hori­zon­tal valo­ri­zando conhe­ci­men­tos recí­pro­cos”, defende a men­tora do pro­jeto. Este faz-​​nos apai­xo­nar por um país que des­co­nhe­ce­mos, cuja dimen­são se estra­nha mas depois se entra­nha. Este é obje­tivo: que­brar bar­rei­ras men­tais e físi­cas, estou­rar este­reó­ti­pos esté­ti­cos e con­ce­tu­ais. Há um mundo lá fora por descobrir.

 Texto de Ana Margarida Meira

Fotografia Carlota Andrade

Produção Sofia Vilarinho

Modelos — Jack e Izzi Mussuela @ Central Models

Make up — Andreia Pinto

Assistente fotó­grafa — Tânia Lopes

Alfaiate — Albubacar Mané

Assistente desig­ner — Caroline Pereira