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Encontrado no baú: Miguel Viana

Começou a pentear aos 16 anos em salões do Porto mas depressa a sua arte passou a ser publicada regularmente nas principais revistas de moda portuguesas. Quando parecia já ter conseguido tudo o que o meio profissional português lhe podia oferecer, foi para fora e actualmente é uma presença frequente nos principais desfiles de Paris e Milão. (Março de 2009)

 Em Portugal o teu trabalho já era sobejamente conhecido, o que te motivou procurar reconhecimento lá fora?

Tem a ver com minha maneira de ser. Sempre que atinjo um objectivo e realizo um sonho, naturalmente surge a vontade de mais e melhor. Adoro Portugal mas como costumo dizer é um país com paredes e tecto. Não é difícil de chegar ao tecto, o complicado é rompe-lo. Pensei que iria para o estrangeiro aos 20 mas e não fui porque depressa tudo começou a correr bem no Porto. Saí aos 31 anos esporadicamente para fazer mais formação mas só nos últimos 2 anos, ao passar a ser residente da equipa de cabeleireiros de Luigi Murenu, comecei a estar cada vez mais no estrangeiro e a pentear nos principais desfiles de moda.

 

Paris é a capital da moda, como te sentiste quando o teu trabalho teve que ser avaliado por outros profissionais?

Paris é a minha segunda casa. Gosto muito da atmosfera da cidade por isso a adaptação foi fácil. De resto ser avaliado por alguém que sabe mais que eu, é um privilégio. É até um sinal de que ainda me restam possibilidades de evoluir.

Backstage Gyvenchy F/W 2009

Conseguir um lugar nos desfiles de Paris e de Milão é um sonho difícil de se concretizar. Quanto tempo demoraste a ser aceite e porque razão terás sido aceite?

Penso que na vida podemos ser e chegar onde quisermos, o importante é interiorizarmos isso. Participar nos principais desfiles de moda foi sempre um sonho, mas demorei alguns anos a tomar essa decisão no meu interior. Umas vezes acreditava, mas vinham sempre dúvidas, desculpas, compromissos, etc. Quando tomei essa decisão interior, na realidade, foi tudo muito rápido. Tive uma entrevista numa quinta e no domingo seguinte estava a ir para Milão para fazer o desfile Valentino Homem. É obvio que se tem de ter um nível de qualidade para ser admitido mas é igualmente importante decidirmos que vamos ser aceites.

 

Qual a sensação de poderes pentear as “Top Models” e de conviver com os maiores criadores de moda?

Para mim, mais que as “top models”   – que são cada vez mais efémeras,  uma estação são cara do momento, na seguinte desaparecem –   o mais importante é o convívio com os profissionais de topo. Trabalhar com os maiores e melhores no mundo da moda faz-me sentir como um peixe dentro de água. Identifico-me com esse universo e sinto que me pertence

 

Quantas manequins penteias por desfile, e quantas pessoas participam na preparação?

O número de profissionais muda de desfile para desfile mas somos em média 25 a 30, o que daria mais ou menos uma manequim por desfile. Mas raramente um de nós está a trabalhar uma única cabeça. Como trabalhamos muito em equipa, o normal é sermos 3 em diversas cabeças. Cada um tenta melhorar onde pode. Em geral temos 4 horas de trabalho para preparar um desfile mas o que acontece é que as manequins mais “top”, estão ocupadas em outros desfiles. Podem chegar a fazer 3 ou 4 por dia e por isso são sempre as últimas a chegar. Há sempre um grupinho de oito que chega na última meia hora e tem que estar prontas para o desfile em 20 minutos. As vezes somos 5 profissionais entre cabelos, maquilhagem, manicure. Um verdadeiro stress mas que faz parte da energia que se vive nesses desfiles.

 

Contam-se muitas piadas sobre as rivalidades invejas que se geram dentro das equipas em torno de quem vai pentear esta ou aquela “Top Model”. Verdade ou mito?

Quando se entra numa equipa não é fácil, há colegas que fazem uma certa barreira e resistência mas também há os que te acolhem bem e põem-te de imediato a trabalhar com eles. O que acontece é que somos muitos e às vezes há uma verdadeira caça ao manequim. Costumo contar sempre esta história. Uma vez um desfile da Gucci, logo no início, abandonei a minha cadeira e fui verificar se haveria alguma manequim a chegar para pentear, quando regressei não só tinha a cadeira estava ocupada como também os meus matérias estavam ser usados e não podia fazer nada

 

Qual o desfile que mais gostaste fazer até agora?

 É uma pergunta difícil de responder porque a minha entrega é igual para todos. O da Givenchy tem sempre uma atmosfera muito forte, parece que queremos ultrapassar os limites porque é um desfile sempre muito falado que toda a gente quer ver. Não quer dizer que é o que goste mais. Gostei particularmente de um desfile da Gucci num palácio em Roma para festejar o septuagésimo aniversário. Depois houve uma festa nos jardins e realmente estava muita gente do mundo da moda.

www.miguelviana.com

Texto de Antónia Rosa

Fotografia de Isabel Pinto

 

Francisco Vaz Fernandes
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