M83 x Hurry Up We’re Dreaming

Com o novo álbum “Hurry Up, We’re Dreaming”, os M83 fizeram-​​nos dese­jar não acor­dar de um sonho dema­si­ado gran­di­oso para ser inter­rom­pido. Foi desta que Anthony Gonzalez apon­tou para as estre­las, sem medo que a bala lhe acer­tasse em cheio entre os olhos. Com o duplo álbum “Hurry Up, We’re Dreaming”, o músico fran­cês natu­ral de Antibes, domi­nou a arte de trans­for­mar cada can­ção num épico emo­tivo de pro­por­ções olím­pi­cas. Aliás, Gonzalez foi mais longe, ao com­bi­nar as exi­gên­cias con­fli­tu­o­sas da pop comer­cial com o rock expe­ri­men­tal em fai­xas real­mente gigantescas.

Desde 2001, com o álbum de estreia homó­nimo e os seguin­tes “Dead Cities, Red Seas & Lost Ghosts” e “Before the Dawn Heals Us”, os M83 vie­ram a aperfeiçoar-​​se na arena post-​​rock e ele­tró­nica cós­mica. Mas foi só em 2008, com o acla­mado “Saturdays = Youth”, que a banda criou um ter­ri­tó­rio pró­prio de pai­sa­gens sono­ras assom­bro­sas, assen­tes em evo­ca­ções de ado­les­cên­cia, ima­gé­tica cine­ma­to­grá­fica impreg­nada em nos­tal­gia e desam­paro, sin­te­ti­za­do­res anes­te­si­an­tes, vocais sonha­do­res dis­pos­tos em cama­das, gui­tar­ras futu­ris­tas inje­ta­das de efei­tos digi­tais e uma cele­bra­ção des­com­ple­xada a Kate Bush e Jean-​​Michel Jarre, que abri­ram cami­nho para o monu­men­tal álbum de 22 fai­xas, em que até os inter­lú­dios se sor­vem avidamente.

Anthony Gonzalez está mais maduro e con­fi­ante do que nunca. A voz atin­giu novas ampli­tu­des, as letras tornaram-​​se mais imer­si­vas e a pro­du­ção ficou cada vez mais deta­lhada. No entanto, mantém-​​nos bem pró­xi­mos de si a orbi­tar sub­til­mente pelas suas memó­rias mais ínti­mas. O pró­prio nome do disco remete para as recor­da­ções de infân­cia do can­tor e das suas fan­ta­sias, fazendo uma retros­pe­tiva da vida de Gonzalez desde miúdo, pas­sando pela ado­les­cên­cia e como adulto. Temas como “Raconte-​​Moi Une Histoire” (nome da revista com uma cas­sete de con­tos nar­ra­dos que a sua mãe lhe com­prava quando tinha 5 anos) ou “OK Pal” (que relem­bra epi­só­dios de ado­les­cên­cia como “quando conhe­ces alguém que real­mente te com­pre­ende”), nar­ram a vida de Anthony como um diá­rio aberto para quem qui­ser ler.

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Hurry Up, We’re Dreaming” é uma expe­ri­ên­cia catár­tica e des­con­cer­tante. A falta de uma nar­ra­tiva clara não choca, afi­nal con­ti­nu­a­mos a sal­tar de sonho em sonho. Um álbum sem refreio, cri­ado como um filme com tema de aber­tura e cré­di­tos finais que não esconde uma pro­funda pai­xão pela sétima arte e uma admi­ra­ção roman­ti­zada pela música dos anos 80, pre­sente em tex­tu­ras sobre­pos­tas de synths capa­zes de encher está­dios, bai­xos em sín­cope car­díaca ou solos de saxo­fone a la Cut Copy.

Nesta audi­ção somos con­fron­ta­dos com duas rea­li­da­des. Por um lado, o tom urgente e intros­pe­tivo do álbum, por outro a dupla iden­ti­dade de Gonzalez como entu­si­asta de pista da dança e tro­va­dor solista. Por isso não estra­nha­mos quando sal­ta­mos da eufo­ria nu-​​disco efer­ves­cente de “Midnight City”, o sin­gle inau­gu­ral, para o cos­mo­nauta espec­tral “Intro”, numa ines­pe­rada cola­bo­ra­ção com Nika Danilova, do pro­jeto goth-​​pop Zola Jesus. Da doçura ino­cente e enso­la­rada de “Raconte-​​Moi Une Histoire”, com pal­mas e vocais de cri­ança, para as gui­tar­ras ace­le­ra­das, per­cus­são aguer­rida e vozes arran­ca­das das entra­nhas de “Reunion” e “The Bright Flash” ou num regresso ao pas­sado às bati­das oito­cen­tis­tas de “Claudia Lewis”, domi­na­das pela mes­tria funk-​​rock do slapbass.

Quando Gonzales des­cre­veu a sua nova pro­du­ção, resumiu-​​a como “muito, muito, muito épica”. E não estava enga­nado. Apesar da pala­vra estar cada vez mais vul­ga­ri­zada, “Hurry Up, We’re Dreaming” é digno de tal ambi­ção, que nos trans­porta numa mon­ta­nha russa de emo­ções mai­o­res do que a vida. Uma fan­ta­sia a que nos agar­ra­mos com a força que o corpo nos per­mite e que ten­ta­mos, a todo o custo, prolongar.

Texto Pedro Lima

www​.ilo​vem83​.com

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