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Lana Del Rey

É a nova estrela pop, capaz de ocupar um centro esvaziado pela dispersão. Lana Del Rey define um tempo marcado pela viralidade em que o processo é o fim e a obra o meio.Ouve-se um canto de serpente. Uma voz grave, quase barítono, cobre camadas de música cinematográfica, milimetricamente dispostas para evidenciar a cantora. As canções de Lana Del Rey parecem feitas de estatística e a verdade é que a dimensão do fenómeno pode ser avaliado de forma muito objetiva. Não há no mapa presente sequer quem lhe faça frente no trono das expectativas, o que em época de descrença alumia ainda mais a candeia.

Born To Die, o álbum, é apenas um capítulo definitivo de uma história que muitos carateres já fez correr e que promete ser mais do que uma bolha em ponto de efervescência adolescente, isto é, pronta a rebentar. A grandeza adquirida graças à viralidade determina uma previsão que supera largamente as cartas do horóscopo: Lana Del Rey é uma estrela pop do presente que, graças à velocidade de propagação da informação e à partilha de conteúdos em redes sociais e outros suportes, praticamente não chegou a pertencer à “classe média”. Nem há dois anos, Lana Del Rey era Lizzy Grant e gravava um álbum homónimo por 7500 euros com a ajuda do produtor David Kahne, conhecido pelo seu trabalho com Regina Spektor, por exemplo. O disco esteve dois meses à venda no iTunes antes de ser retirado quando a artista foi descoberta pela editora atual. As canções estão disponíveis no YouTube para exercícios comparativos e, a julgar pelos comentários, não são poucos aqueles que o fazem. A vontade manifestada pela própria em reeditá-lo por alturas do verão parece mais um ato de gestão para limpar a imagem fake do que propriamente um ato espontâneo de recuperação do passado.
É que além de todas as alterações estruturais que a mudança para uma multinacional e decorrente aposta global obrigaram, Lizzy Grant – o seu nome verdadeiro até é Elizabeth – passou a ser Lana Del Rey, uma inspiração siamesa entre Lana Turner e Ford Del Rey. A construção da personagem passou também por um reforço labial de botox, além de outras transformações apenas ao alcance dos cirurgiões mais competentes. O que se depreende do processo que a elevou ao estrelato num ápice é que a música foi apenas um meio para atingir um fim. As referências assumidas (de Bob Dylan aos Nirvana) pouco ou nada se refletem num conjunto de canções que revelam uma identidade duvidosa e, sobretudo, excesso de mecânica. O que a previsibilidade do álbum não indiciava era um falhanço tão rotundo na hora do confronto com o microfone. Já se notava grande cautela na gestão da relação entre Lana Del Rey e os palcos mas nem os maiores detratores poderiam esperar uma prestação tão desastrosa no Saturday Night Live. Regozijaram-se os mais críticos e desiludiram-se aqueles que a defendiam arreigadamente. No momento em que não podia mesmo falhar, deixou uma imagem de desorientação como quem não sabe o que fazer ao microfone. As versões de palco de Video Games e Blue Jeans tomaram proporções gigantescas no contexto de uma comunicação cada vez mais rápida e viral mas para trás havia todo um trajeto de antecipação capaz de produzir milhões de cliques no YouTube.

O mais importante nesta história não é a música mas antes a forma como ela é comunicada. Ou, por outras palavras, a forma como o processo se tornou tão ou mais importante que a obra. É que à saída de Born To Die, metade do álbum já era conhecido o que não impediu que se tratasse de um acontecimento. Mesmo com a digestão feita antes sequer de a refeição completa ser servida. Há um mundo em mudança, o da comunicação e, sem redefinir as regras, Lana Del Rey soube jogar com elas. As canções aparecem lá pelo meio.

Texto de Davide Pinheiro para a edição de Março da PARQ

 

 

Francisco Vaz Fernandes
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