Places: Cais do Sodré

O Cais do Sodré ganha uma nova vida, estando de repente envolto num sur­pre­en­dente movi­mento de rea­bi­li­ta­ção. Longe, fica­ram as noi­tes escu­ras e som­brias de cará­ter duvi­doso que facil­mente se asso­ci­ava àquela zona e hoje é um dos locais mais in de Lisboa, que abraça alguns dos pro­je­tos mais ino­va­do­res que a cidade já viu. Para um roteiro com pou­cos pas­sos mas mui­tas sen­sa­ções, basta ir até à Rua Nova do Carvalho.

Começamos pela porta nº19, cuja fachada dis­creta não deixa adi­vi­nhar as gra­vu­ras eró­ti­cas da auto­ria de Mário Belém, com as pare­des for­ra­das a tecido encar­nado, os espe­lhos no teto e os can­de­ei­ros de ber­lo­ques. Um espaço que res­pira o ambi­ente das casas de madame no final no século XIX, onde se podem alu­gar livros e fil­mes eró­ti­cos e ir ao cabe­lei­reiro, entre mui­tas outras coi­sas, já que a ideia é que o espaço fun­ci­one como uma pen­são onde artis­tas e pro­je­tos podem alu­gar o seu espaço den­tro da Pensão Amor. Assim, este não é ape­nas um espaço dife­rente onde se res­pira uma liber­dade sem tabus (exis­tindo até um varão para quem qui­ser dan­çar livre de qual­quer pre­con­ceito), mas tam­bém se quer cul­tu­ral e dinâ­mico onde a troca de ideias, as par­ce­rias e a cri­a­ti­vi­dade têm um lugar cativo.

 

Saímos agora deste mundo outrora clan­des­tino e segui­mos até ao nº 32–36 onde, na cal­çada pode­mos ver o antigo nome “Arizona” mas, se olhar­mos em frente, rapi­da­mente encon­tra­mos outro que o subs­ti­tui: Povo. Este é um pro­jeto que pre­tende recu­pe­rar a tra­di­ção das anti­gas tas­cas por­tu­gue­sas onde a con­versa, o fado e os petis­cos andam sem­pre lado a lado. Mas o Povo não é uma casa de fados, nem uma tasca, é antes um “labo­ra­tó­rio do fado” onde há espaço para artis­tas da casa, para novos talen­tos e até para o impro­viso espi­ca­çado pelo bom vinho de um jan­tar cas­tiço, num lugar cui­da­do­sa­mente res­tau­rado que casa o moderno com o tra­di­ci­o­nal. Os espe­tá­cu­los decor­rem de terça a quinta-​​feira e aos domin­gos e já cul­mi­na­ram na gra­va­ção de um álbum. Mas este Povo não é só fadista, tam­bém é fã de outras músi­cas do mundo e pro­mete tra­zer para a sua casa outras vozes e ritmos.

Depois do fado há que man­ter a tra­di­ção e, por isso mesmo, dirigimo-​​nos até ao nº44 daquela mesma rua. Espera-​​nos uma mon­tra que deixa ante­ver uma enorme vitrina repleta de anzóis, iscos e latas de con­ser­vas – mui­tas, mas mui­tas latas de con­ser­vas. Em frente, mesa bran­cas e cadei­ras pre­tas ocu­pam o espaço que em quase tudo se man­tém igual aos tem­pos em que era uma loja de pesca. Mas, e agora, o que se faz ali? Comem-​​se con­ser­vas! É ver­dade, por muito estra­nho que pareça, é um espaço dedi­cado exclu­si­va­mente às con­ser­vas, os melho­res petis­cos são vin­dos dire­ta­mente da lata mas não de uma lata qual­quer… de uma lata 100% por­tu­guesa onde não falta o sabor do nosso mar. Uma exce­lente suges­tão para quem quer uma refei­ção dife­rente num espaço com muita his­tó­ria, é assim o Sol e Pesca!

Assim ter­mina um roteiro rápido e curto mas que vale a pena des­co­brir, onde não falta a tra­di­ção e a boé­mia, que são vizi­nhas e com­pa­nhei­ras no reno­vado Cais do Sodré!

 

por. Margarida Brito Paes

Fotografia.  Laura Palmer

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