Encontrado no baú: Nuno Markl

Afinal o que é que os anos 80 tive­ram de tão espe­cial? NUNO MARKL explica e fala sobre a década que o ins­pi­rou a fazer a CADERNETA DE CROMOS, um sketch na Rádio Comercial que agora pas­sou para livro, com cro­mos a sério e tudo. Depois de O HOMEM QUE MORDEUCÃO e de VIDA EM MARKL, pode­mos ainda vê-​​lo no Canal Q com o pro­grama SHOWMARKL. O que lhe falta fazer?

 

No dia-​​a-​​dia, és real­mente uma pes­soa bem-​​disposta?

Tenho dias, como toda gente, mas gene­ri­ca­mente é pre­ciso bas­tante para me vira­rem ao con­trá­rio. Tento olhar para o ângulo posi­tivo das coi­sas, embora apre­cie e tenha uma grande estima pelo meu lado mal-​​disposto. A má dis­po­si­ção pode tornar-​​se a melhor amiga do humo­rista – aliás, a crí­tica vem mais da má do que da boa dis­po­si­ção. O humor é uma forma de exor­ci­zar esse lado, que nos cha­teia e nos irrita. O que um humo­rista faz é trans­for­mar isso em comédia.

 

O que te deixa irritado?

Há coi­sas que me irri­tam na soci­e­dade por­tu­guesa como a buro­cra­cia, os polí­ti­cos… Obviamente, essa irri­ta­ção acaba por ser facil­mente trans­for­má­vel em cri­a­ti­vi­dade. Recentemente, nada me irri­tou mais do que um engano das finan­ças. Na altura achei a oca­sião odi­osa mas depois pareceu-​​me um momento mara­vi­lhoso. Não há nada que sus­cite mais a comé­dia do que a estu­pi­dez buro­crá­tica em que este país parece ser tão rico. Também fico irri­tado quando tenho pou­cas horas de sono. As melho­res edi­ções da CADERNETA DE CROMOS acon­te­ce­ram quando dormi menos horas e estou mais on the edge – sem que­rer pare­cer pre­ten­si­oso. O sono é um estado amigo do humor e da comédia.

 

O que é para ti um mau momento cómico?

São momen­tos muito nor­nais nesta pro­fis­são. Por vezes, estou a escre­ver em casa e acho que vai cor­rer mara­vi­lho­sa­mente mas, quando estou no ar todo con­tente a dizer a piada e a pen­sar “com esta é que eu vou dar cabo deles”, apercebo-​​me no momento que, afi­nal, não tem graça nenhuma. É o pior momento cómico de todos. A comé­dia é uma coisa deli­cada, difí­cil de fazer e de per­ce­ber se vai fun­ci­o­nar ou não. Às vezes basta uma res­pi­ra­ção fora do sítio, um ligeiro engano ou uma ligeira gaguez para estra­gar tudo. É um cas­telo de car­tas mas em que as car­tas são de papel vege­tal. Aquilo cai num instante…

 

Como dás a volta nes­sas alturas?

É sem­pre um exer­cí­cio engra­çado. Estás per­fei­ta­mente cons­ci­ente de que está a acon­te­cer uma catás­trofe, a tua cabeça está a mil para encon­trar solu­ções e ten­tar sair daquele buraco. Às vezes até se con­se­gue sal­var a piada e fazer uma coisa gira. É mais desa­gra­dá­vel quando esta­mos a escre­ver para outras pes­soas e esta­mos con­fi­an­tes de que vai resul­tar. São sem­pre ris­cos que se correm.

 

Portugal está a atra­ves­sar um mau momento cómico?

Normalmente, quando Portugal atra­vessa os seus pio­res momen­tos é quando acon­te­cem os melho­res momen­tos cómi­cos. Estou a lembrar-​​me do tempo das tro­pe­lias de Santana Lopes, as coi­sas que ele dizia e fazia já eram comé­dia, quase não era pre­ciso escre­ver. A nossa classe polí­tica proporciona-​​nos bons momen­tos de comé­dia que quase se escre­vem a eles pró­prios. Num momento de crise é sem­pre bom exor­ci­zar o sen­ti­mento de deses­pero que existe, embora tenha­mos que usar pin­ças e ser mais cui­da­do­sos por­que as pes­soas que­rem rir e estar bem dis­pos­tas, mas tam­bém estão mais sen­sí­veis e recep­ti­vas a não acha­rem piada nenhuma.

 

Como sur­giu a ideia de fazer a CADERNETA DE CROMOS?

Também sur­giu de uma situ­a­ção de algum mal-​​estar. Com 39 anos, na ante­câ­mara dos 40, pen­sei que se calhar estava a pas­sar por uma crise de meia-​​idade e perguntei-​​me de que forma podia trans­for­mar tudo isto numa situ­a­ção de humor. Comecei a olhar para trás, não num sen­tido sau­do­sista e doen­tio, nado do tipo “ah aque­les tem­pos é que eram bons”, mas com von­tade de cele­brar o meu tempo de juven­tude e das pes­soas que nas­ce­ram nessa época. Estava a pas­sar da Antena 3 para a Rádio Comercial e entre mim e o Pedro Ribeiro sur­giu a ques­tão sobre que pro­grama fazer. Não valia a pena res­sus­ci­tar o tempo do HOMEM QUE MORDEUCÃO, quando se pro­cura recu­pe­rar algo que cor­reu muito bem é raro que coi­sas darem bom resul­tado. Achei que tinha de criar uma coisa com­ple­ta­mente nova e, tendo em conta a faixa etá­ria do público da Rádio Comercial, tal­vez os exor­cis­mos dos meus 40 anos falas­sem mais à audiência.

 

De todos os “cro­mos” dos anos 80, quais os que te vie­ram pri­meiro à memó­ria e deram mais von­tade de fazer o programa?

Quando come­cei a rubrica parti com o sen­ti­mento de que isto era uma coisa que eu ado­rava que alguém já tivesse feito. Uma das razões que me levou a avan­çar foi cris­ta­li­zar algu­mas recor­da­ções que anda­vam a flu­tuar den­tro de mim. De iní­cio, nem me lem­brei das coi­sas mais óbvias, não pen­sei em bom­bo­kas nem em cubos mági­cos mas num brin­quedo ridí­culo que saiu algu­res nos anos 80, uma minhoca de pêlo que se cha­mava Bzzu, que tinha um anún­cio ape­la­tivo mas era uma desi­lu­são tre­menda quando a com­prá­va­mos. Então, decidi que a pri­meira coisa que tinha de falar era do Bzzu que, a certa altura, já era uma coisa meio mito meio rea­li­dade. Chegava-​​me a ques­ti­o­nar se aquilo real­mente exis­tiu ou se sonhei com essa cobra num dia em que estava com febre.

 

Realmente nunca ouvi falar do Bzzu, não dei­xou grande his­tó­ria. Como é que este tipo de refe­rên­cias comu­nica com um público mais jovem, que reve­ren­cia os anos 80?

Curiosamente, jul­gava que esta rubrica ia ter um público-​​alvo muito espe­cí­fico den­tro da minha faixa etá­ria mas, sur­pre­en­den­te­mente, apa­re­cem miú­dos de 12 anos nas ses­sões de autó­gra­fos do livro. Penso que os miú­dos ouvem os pais con­tar estas his­tó­rias e acham graça por­que é um ambi­ente com­ple­ta­mente dife­rente, quase como se tivés­se­mos exis­tido nou­tro pla­neta. Depois há as pes­soas mais velhas, que são as mães e os pais que nos com­pra­ram o Bzzu, que pas­sa­ram por isto de um outro ângulo e acham graça relem­brar esse tempo. Mas com os miú­dos é um fenó­meno mais engra­çado. Os anos 80 estão na moda e há muita gente nova a descobri-​​los, até por­que muita da música que se pro­duz actu­al­mente inspira-​​se nessa época. Acaba por haver uma curi­o­si­dade quase extra-​​terrestre – estes tipos eram malu­cos, tinham com­pu­ta­do­res ridí­cu­los com 40k de memó­ria, uma coisa do outro mundo.

 

De todos, qual é o melhor cromo dos anos 80?

É uma per­gunta difí­cil, foi uma época alu­ci­nante, havia cro­mos em todo lado. Mas o TARZAN BOY dos BALTIMORA era um cromo incrível.

 

SAMANTHA FOX ou KIM WILDE, afi­nal, qual delas para casar e qual delas para “coiso”?

No uni­verso da CADERNETA DE CROMOS, a SAMANTHA FOX e a KIM WILDE  aca­bam por resu­mir aquilo que nos pas­sava na cabeça no sen­tido de divi­dir as mulhe­res que eram para casar e as mulhe­res que eram para “coi­sar”. Obviamente, a SAMANTHA era para “coiso” e a KIM para casar…

 

E a MADONNA?

A MADONNA era para “coiso”, aquilo das ren­das e dos cru­ci­fi­xos era extremo…

 

Em que altura da tua vida per­ce­beste que podias fazer uma car­reira do humor?

Sempre gos­tei de ver fil­mes e séries cómi­cas mas apercebi-​​me que o humor podia ser uma exce­lente defesa na escola, que é uma soci­e­dade bas­tante cruel, espe­ci­al­mente quando se era um caixa de ócu­los e se tinha todos aque­les com­ple­xos ine­ren­tes a essa condição.

 

Estudavas em Lisboa?

Sim, em Benfica. Grande parte da CADERNETA DE CROMOS tem Benfica como cená­rio, essa terra de sonhos. É a minha Oz. Na escola come­ça­mos a criar algu­mas defe­sas, espe­ci­al­mente quando se tem pro­ble­mas de auto-​​confiança, e o humor é uma delas. Gostava imenso de dese­nhar e fazia cari­ca­tu­ras dos meus cole­gas, que assim não me batiam tanto (risos). Percebi que con­se­guia con­quis­tar algu­mas pes­soas dessa forma. Mal eu sabia, pas­sa­dos tan­tos anos, que quem tra­ba­lha em humor é quem leva mais pan­cada por­que divide as pes­soas. O que faz rir a pes­soa A não é o que faz rir a pes­soa B. Quando acham piada, as pes­soas dizem coi­sas boni­tas e apai­xo­na­das mas, quando não gos­tam, são capa­zes de dizer as coi­sas mais bru­tais, pio­res do que aque­las que alguma vez ouvi na escola. Só não dão é cal­dos (risos).

 

A soci­e­dade por­tu­guesa tem sen­tido de humor?

Aos pou­cos, vai tendo um boca­di­nho mas com alguma difi­cul­dade. O por­tu­guês gosta bas­tante de se rir dos outros mas custa-​​lhe rir-​​se de si pró­prio. A comé­dia por­tu­guesa durante mui­tos anos foi muito boa, os anos clás­si­cos da revista à por­tu­guesa foram impor­tan­tes para o nosso sen­tido de humor. Mas era base­ado na ten­são de não se poder dizer tudo, o que era espec­ta­cu­lar por­que se desen­vol­ve­ram imen­sas ideias de comé­dia mas tornou-​​nos, de certa forma, mais retraí­dos e enfi­a­dos. Ao mesmo tempo, foram-​​se ope­rando algu­mas revo­lu­ções inte­res­san­tes. O HERMAN JOSÉ fez coi­sas incrí­veis com o TAL CANAL nos iní­cio dos anos 80… Mais para a frente houve esse boom, no iní­cio de 2000, dos cómi­cos de stand up, depois apa­re­ce­ram os GATO FEDORENTO. Devagarinho, vão-​​se abrindo os hori­zon­tes dos por­tu­gue­ses para a comédia.

 

Vês-​​te mais como um escri­tor, um humo­rista ou um homem da rádio?

São todas face­tas de uma mesma moeda. Gosto muito de escre­ver. Passei uma boa parte da minha vida a escre­ver para outras pes­soas e sem­pre me senti bas­tante con­for­tá­vel nesse papel. Ver os meus tex­tos inter­pre­ta­dos por acto­res muito bons con­ti­nua a ser das melho­res sen­sa­ções que há.

 

Costumas par­ti­ci­par na direc­ção de actores?

Geralmente não, ape­sar de ter tido um esboço disso quando escre­vía­mos para o HERMAN por­que íamos com ele para o estú­dio de rádio e, por vezes, timi­da­mente, fazía­mos suges­tões. Mas ele é o HERMAN e não está­va­mos a ensinar-​​lhe nada, a maior parte das vezes ele melho­rava as ideias que tínha­mos na cabeça.

 

E para quando um pro­grama na tele­vi­são com o NUNO MARKL?

Eu só con­sigo criar-​​me a mim pró­prio, sou um pés­simo actor. Fiz uma série de epi­só­dios para a Internet base­ada no pro­grama de rádio e no car­toon VIDA EM MARKL, um género de uma sit­com que eu achei que tinha per­nas para andar. Agora no canal Q estou a fazer o SHOWMARKL que tem uns sket­ches lá pelo meio em que faço de mim pró­prio, numa ver­são meio cari­ca­tu­rada. Mas hoje em dia as tele­vi­sões estão pouco recep­ti­vas à comé­dia. Tanto pode resul­tar como falhar rotun­da­mente, por isso as tele­vi­sões gene­ra­lis­tas estão a apos­tar no que é mais seguro – malta a can­tar, a dan­çar ou fechada numa casa com câmaras.

 

Como con­vi­ves com as crí­ti­cas das pes­soas que não gos­tam do teu trabalho?

Costumava ter mais retorno quando tinha comen­tá­rios no meu blog mas depois pas­sei a usar mais o Facebook. Num blog aquilo é lindo, as pes­soas podem escre­ver livre­mente o que lhes ape­tece. No Facebook, aque­les que não gos­tam de mim já lhes custa serem fãs da minha página. Para dize­rem mal têm que ser fãs e aquilo torna-​​se esqui­sito (risos).

 

E deci­diste tirar os comen­tá­rios do teu blog…

Aquilo estava a aze­dar muito. Havia pes­soas que fica­vam madru­ga­das intei­ras a dizer coi­sas que eu come­cei a con­si­de­rar dema­si­ado ter­rí­veis para serem publi­ca­das. Não fazia sen­tido dar espaço à cru­el­dade tre­menda de algu­mas pessoas.

 

Quais são as tuas mai­o­res influências?

Muita gente, de vari­a­dís­si­mas épo­cas. De uma forma mais ime­di­ata, o HERMAN e os MONTY PYTHON. Quando come­cei a des­per­tar para a comé­dia foram muito impor­tan­tes. Mas há mui­tas outras, a come­çar pelos clás­si­cos por­tu­gue­ses como O PAI TIRANO, A CANÇÃO DE LISBOA, até aos fil­mes dos IRMÃOS MARX, de quem eu sou um grade fã. E, claro, o WOODY ALLEN e o PETER SELLERS, que fez um dos fil­mes que mais me esti­mu­lou a escre­ver comé­dia, o DR. ESTRANHO AMOR, de STANLEY KUBRICK, uma sátira sobre a guerra que usa a comé­dia e con­se­gue pas­sar a men­sa­gem de forma mais efi­caz do que se usasse lições de moral. Estou sem­pre a rece­ber influên­cias por­que estão sem­pre a acon­te­cer coi­sas extra­or­di­ná­rias lá fora como o SEINFELD e, mais recen­te­mente, o RICK GERVAIS.

Texto: Francisco Vaz Fernandes e Cláudia Gavinho

Fotografia: Javier Domenech

 

 

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