Shame

Ainda que tenha estre­ado há algum tempo, não pode­mos pas­sar ao lado de Shame, a segunda longa-​​metragem de Steve McQueen, com Michael Fassbender e Carey Mulligan, um dos fil­mes mais fala­dos dos últi­mos meses e, cer­ta­mente, um dos gran­des deste ano. Depois da fome, McQueen filma o sexo numa Nova Iorque escura e depres­siva por onde Brandon vagueia à noite com o intuito de satis­fa­zer os seus ímpe­tos carnais.

No apar­ta­mento recebe mulhe­res e vê por­no­gra­fia, quando a noite de engate não supre o efeito dese­jado: neu­tra­li­zar uma dor plan­tada há muito num lugar como a Irlanda, onde nas­ceu, ou Nova Jersey, onde foi cri­ado (“We’re not bad peo­ple, we just come from a bad place”). A sua rotina é per­tur­bada quando a irmã Sissy lhe apa­rece em casa. Ele sente-​​se des­con­for­tá­vel ao seu lado e afasta-​​a, enquanto ela o con­tacta e exte­ri­o­riza a sua frustração.

À medida que se aper­cebe do fosso que criou entre si e o mundo, Brandon tenta relacionar-​​se sau­da­vel­mente com uma mulher mas está com­ple­ta­mente fora de jogo nas lides do amor. A par­tir daí, enterra-​​se no seu pró­prio cal­vá­rio: durante uma orgia assis­ti­mos ao seu deses­pero, quando o sexo dei­xou de ser pra­zer e se tor­nou escape, e onde o orgasmo é a apo­te­ose de um peso atroz. O seu fardo vem da ver­go­nha que o impos­si­bi­lita de se expres­sar. O des­prezo que sente por si mesmo tornou-​​se fami­liar mas cravou-​​lhe o vazio na alma e incapacitou-​​o de criar inti­mi­dade com alguém. O sexo é seco, frio, sem ponta de sen­su­a­li­dade. Há mui­tos cor­pos nus, mas o que corre den­tro dos per­so­na­gens nunca é reve­lado. Sabemos que que­ria ter sido pia­nista de uma outra época, daí os vinis de música clás­sica – a valo­ri­za­ção do que não pode ter.

Mais do que ter vindo de um sítio errado, Brandon nas­ceu num tempo errado, sem auten­ti­ci­dade. Fassbender encarna um per­so­na­gem mecâ­nico e intrans­po­ní­vel mas que se emo­ci­ona coma fra­gi­li­dade da irmã, a única mulher que ama e que por isso o apri­si­ona. Um drama pro­fun­da­mente humano sobre a dis­cre­pân­cia latente entre amor, sexo e famí­lia, num tempo em que a fron­teira privado/​público, real/​irreal se esbate a pas­sos lar­gos e vive­mos todos jun­tos (n)um grande vazio.

Texto Inês Monteiro

 

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