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Afro-Colômbia

Das gentes de Palenque emerge agora uma história singular onde África, liberdade e futuro são coordenadas possíveis. No início do documentário que está na base do mais recente lançamento da Soul Jazz, Jende Ri Palenge (“Gente de Palenque”, na tradução) que surge com selo da Soul Jazz Films, um descendente de escravos, que é parte da mais antiga comunidade de negros livres das Américas refere que está na Colômbia por “acidente”: «devíamos estar no continente negro, em Angola». E começa assim uma história de dor, identidade e ritmo absolutamente singular, um novo exercício de descoberta musical para que a editora londrina contribui de forma decisiva ao dar à estampa este extraordinário objeto. São 2 cds (ou 5 lps!) mais um dvd e um encarte profusamente ilustrado onde a história de Palenque é iluminada por palavras e ideias. E, sobretudo, por sons.
Santiago Posada e Simon Mejia viveram em São Basílio de Palenque durante três meses e filmaram o dia-a-dia destes descendentes de escravos procurando a raiz da sua identidade, construindo de facto um retrato de uma alma particular que, a exemplo do fado, a UNESCO também distinguiu como sendo património imaterial da humanidade.

Foi na década de 70 que um fenómeno particular aconteceu em Palenque, quando pequenos sound systems ambulantes se estabeleceram na área ajudando a criar uma fértil cena musical onde África e uma herança latina se cruzavam em idênticas proporções criando uma mistura altamente percussiva e profundamente dançável. À semelhança da cultura de sound systems na Jamaica, também em Palenque essa tecnologia ligava afinal as gentes a um sentir ancestral em que a música cumpria sobretudo um papel social. Já no século XXI, a dupla responsável por este documentário instalou na cidade um estúdio onde gravou o material agora apresentado no primeiro cd, música de raiz na verdadeira aceção da palavra assinada por coletivos com nomes como Son Malagana, Son San, Curramberos de Gamero ou Sikito. A parte seguinte da aventura passou pela entrega destas gravações a criadores “ocidentais”. Osunlade, Deadbeat, Kalabrese, Matias Aguayo, Subway, Kromestar ou Jay Haze ligam a história de Palenque às modernas encarnações dos sistemas de som, apontam os estímulos rítmicos primevos ao centro das pistas de dança e ao cosmos, carregam nos baixos e extraem poder hipnótico dos padrões repetidos em rituais de celebração com cor local.

Trata-se de um encontro de culturas. Ou talvez a expressão mais correta seja até reencontro de culturas, quando o futuro e o presente e o passado se entrelaçam até já não haver distinção possível. Com dinheiros de descendentes de potências coloniais (o fundo do Príncipe Claus da Holanda apoiou o estabelecimento do estúdio na comunidade, para que esta largamente indocumentada tradição possa finalmente ser fixada) recupera-se afinal uma música que resultou de um desejo insuperável de liberdade, uma espécie de grito primal que era, no fundo, um regresso a casa. As pessoas de Palenque podem estar ali por acidente, mas a história fez do acidente uma nova marca de identidade, ao mesmo tempo que manteve vivas as ligações originais ao continente que perderam com os fluxos dessa mesma história. Ainda não se disse, mas já se deve ter percebido: é mais um lançamento extraordinário da incontornável Soul Jazz.

Texto de Rui Miguel Abreu

Francisco Vaz Fernandes
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