Fabio Novembre (entrevista)

Fabio Novembre ostenta aquela espe­ta­cu­la­ri­dade que todos os gran­des desig­ners apre­sen­tam num dado momento nas suas car­rei­ras, quando o seu tra­ba­lho já não pode ser mais posto em causa e o seu cami­nho é o da exce­lên­cia e da admi­ra­ção. Das peças mais espan­to­sas cri­a­das por este desig­ner, a peça Him & Her con­ci­lia um laivo de sur­re­a­lismo com um rasgo de con­tem­po­ra­nei­dade, pre­o­cu­pa­ções ambi­en­tais e crí­tica social. Os obje­tos de Novembre têm tudo e, acima de tudo, sen­su­a­li­dade. Por detrás de peças que alu­dem ao sen­su­a­lismo revela-​​se, no entanto, e em entre­vista, um homem espi­ri­tual, sério, em busca do que ver­da­dei­ra­mente admira: a sabedoria.

O seu design sen­sual terá sido um pre­texto para suplan­tar a herança dei­xada pela expres­são indus­trial, insí­pida, que inva­diu a nossa cul­tura mate­rial durante déca­das? Um design que exprime a vida e não a máquina? Pretende, como afir­mou à revista Frame, «amar até morrer»?

A ver­dade é que há mui­tas razões para se ser sen­sual, mas cada um de nós terá que encon­trar a sua. Eu cos­tumo dizer que este não é mais o tempo para se ser per­su­a­sivo. A única forma para nos ligar­mos às pes­soas é atra­vés da sedu­ção. A sen­su­a­li­dade é uma força pri­má­ria que se rela­ci­ona com os nos­sos ins­tin­tos de sobre­vi­vên­cia. Mas, admi­ta­mos, valerá a pena sobre­vi­ver se não esti­ver­mos apaixonados?

Her&Him Casamania

Por vezes parece escre­ver a his­tó­ria do design, não tanto por­que usa osten­si­va­mente a tec­no­lo­gia como pri­meira pre­o­cu­pa­ção mas por­que faz uma abor­da­gem mais con­cep­tual do design, por outras pala­vras, sub­ver­tendo os sig­ni­fi­ca­dos do design.

Os sig­ni­fi­ca­dos do design… Tenho que admi­tir que, mesmo depois de tan­tos anos na área, não con­sigo reconhecê-​​los. Vamos colo­car as coi­sas desta forma: ima­gi­ne­mos que esta­mos a viver na era das caver­nas. Bem, não sou pro­pri­a­mente aquele que esculpe as fer­ra­men­tas que ser­vem para caçar mas sou defi­ni­ti­va­mente aquele que, depois de um ritual de sobre­vi­vên­cia, sente a neces­si­dade de esbo­çar o acon­te­ci­mento nas rochas da caverna.

Em tem­pos pro­nun­ciou, numa entre­vista: «O pre­sente, para mim, é qual­quer coisa que deve­mos viver inten­sa­mente por­que é um dom ser um homem con­tem­po­râ­neo no meu tempo. Eu sou o agora. Agora». Será por essa razão que inter­vém nos velhos íco­nes do design? Para lhes dar algo do pre­sente? Alguns dos seus obje­tos pare­cem evo­car íco­nes dos anos 60 e 70.

A evo­lu­ção não é negar o pas­sado. Sir Isaac Newton disse um dia: «Se con­se­gui ver mais além foi por me debru­çar nos ombros dos gigan­tes». Acredito que sele­ci­ono cri­te­ri­o­sa­mente os meus gigan­tes e tra­ba­lho muito para che­gar aos seus ombros. O obje­tivo mantém-​​se: ten­tar ver mais além.

NEMO, Mask Chair by Driade

Alguns dos seus obje­tos que lem­bram for­te­mente os íco­nes dos anos 70 e da pop art aca­bam como que “cor­ta­dos” ao meio. Como, por exem­plo, a cadeira Strip. Esta ação trans­mite uma pre­o­cu­pa­ção em rela­ção à dimen­são do espaço, den­tro e fora ou externo e interno?

Logo no ins­tante em que nas­ce­mos desen­vol­ve­mos um sen­tido do den­tro e do fora. E mesmo a metá­fora sexual é sobre­tudo sobre deixarem-​​nos entrar ou per­ma­ne­cer­mos do lado de fora. Os obje­tos mere­cem inti­mi­dade, uma com­ple­men­ta­ri­dade sen­sual com os nos­sos cor­pos. Eles nas­ce­ram para isso.

Essa urgên­cia do den­tro e do fora, tem algo a ver com o facto de ser arquiteto?

Acho que tem a ver com o facto de ser um ser humano. Os nos­sos ante­pas­sa­dos usa­vam as caver­nas como as suas pri­mei­ras casas e eram os seus ins­tin­tos que os puxa­vam para adap­ta­rem os espa­ços no seu inte­rior. Quando os pri­mei­ros sinais do que hoje dize­mos ser arqui­te­tura vie­ram ao de cima, foram ape­nas uma con­sequên­cia das neces­si­da­des internas.

Disse um dia que tinha a visão de que ficar velho, para si, sig­ni­fi­cava «tornar-​​se sábio». O design é uma ati­vi­dade que é habi­tu­al­mente asso­ci­ada ao novo: novas ideias, novos mate­ri­ais, novas téc­ni­cas, novos desig­ners… Não tem medo de ser supe­rado por estas novas gerações?

Ainda acre­dito no que disse. Alguns dos mes­tres que fica­ram são fon­tes de sabe­do­ria. Se for­mos paci­en­tes o sufi­ci­ente para os ouvir­mos… Não acho que o pro­blema do novo seja ape­nas exclu­sivo do design. É uma con­tra­di­ção espa­lhada por toda a nossa soci­e­dade. As expec­ta­ti­vas de vida aumen­ta­ram muito mas, no prin­cí­pio, o que todos que­re­mos é san­gue novo, o que torna as pes­soas ansi­o­sas quanto a atin­gi­rem os seus obje­ti­vos, per­dendo a capa­ci­dade para sabo­re­a­rem o momento. A vida é um cami­nho longo e cada fase tem os seus prós e os seus con­tras. Vamos apren­der a viver um dia de cada vez, o mais inten­sa­mente pos­sí­vel. Esta é a minha única sugestão.

último pro­jecto de Novembre,  36h 56h para a Driade

Acha que o design poderá tornar-​​se, um dia, numa ati­vi­dade madura?

O design é uma ati­tude natu­ral no ser humano. O único ser vivo capaz de alte­rar o ambi­ente segundo as suas neces­si­da­des é o homem. Claro que este impulso cau­sou vários pro­ble­mas ao nosso pla­neta. A vida con­siste numa esco­lha de pri­o­ri­da­des e o design é isso. Um bom desig­ner deve­ria ser, pri­meiro que tudo, uma boa pes­soa. Os seus dese­jos de mudança nunca deve­riam envol­ver qual­quer modo de prevaricação.

Minimização, des­ma­te­ri­a­li­za­ção. Não serão ame­a­ças para a cor, para a cri­a­ti­vi­dade, para a ver­da­deira vida?

Tenho a noção de que per­tenço ao último reduto dos defen­so­res da tri­di­men­si­o­na­li­dade: o design é o último media que nos faz recor­dar que somos real­mente de carne e osso. De que no final de todas as coi­sas, lá nos encon­tra­mos, rode­a­dos de maté­ria, de pes­soas que pode­mos tocar, abra­çar, levar para a cama…

Como lida, na prá­tica, com todas estas pre­o­cu­pa­ções rela­ci­o­na­das com o ambi­ente e a pro­gres­siva des­ma­te­ri­a­li­za­ção que tere­mos de enca­rar, mais dedo ou mais tarde, no futuro?

O difí­cil equi­lí­brio entre os seres huma­nos e o ambi­ente é muito bem expli­cado em The Matrix e pelo per­so­na­gem Agente Smith, um ali­e­ní­gena. Ele diz-​​nos: «Tentei clas­si­fi­car a vossa espé­cie e che­guei à con­clu­são que os huma­nos não são pro­pri­a­mente mamí­fe­ros. Qualquer mamí­fero neste pla­neta desen­volve ins­tin­ti­va­mente um equi­lí­brio natu­ral com o ambi­ente à sua volta, mas os huma­nos não. Pelo con­trá­rio, os huma­nos mul­ti­pli­cam, mul­ti­pli­cam até que todos os recur­sos são con­su­mi­dos. A única forma que os huma­nos encon­tram para sobre­vi­ve­rem é espalharem-​​se e pro­cu­ra­rem outros luga­res. Há outro orga­nismo no nosso pla­neta que segue o mesmo padrão: os vírus. Os seres huma­nos são uma doença, um can­cro neste pla­neta. Vocês são a praga, e nós somos a cura». Será que que­re­mos que alguns dos ali­ens sejam a cura?

Happy Pills para Murano

Poderia contar-​​nos um pouco mais a his­tó­ria da peça Per Fare un AlberoSOS?

Para fazer uma árvore é pre­ciso que se dê uma explo­são muito lenta da semente. Sendo que se trata de um pro­cesso lento, nós, pelo con­trá­rio, somos capa­zes de fazer as coi­sas acon­te­cer de forma muito rápida. E fizemo-​​lo, com a câmara de Milão e com a Fiat, inven­tado uma pequena solu­ção para a neces­si­dade que esta cidade tem de se ver verde e de fazer as pes­soas sor­rir e pen­sar. Acredito que as árvo­res é que são os nos­sos ver­da­dei­ros anjos, e não seres sobre­na­tu­rais ala­dos. As árvo­res, de que tanto depen­de­mos, são com­pa­nhei­ras de vida e produzem-​​nos o oxi­gé­nio. O resul­tado do nosso estado incan­sá­vel de movi­mento é pas­sar­mos a maior parte do tempo nos nos­sos car­ros e cada vez menos nas nos­sas casas. As árvo­res e os car­ros, que cada vez mais com­pe­tem entre si por um lugar na nossa pai­sa­gem urbana, tornaram-​​se num só objeto e no sím­bolo de um novo estilo de vida. O SOS, acró­nimo de Sofa Of Solitude é um grito cole­tivo de ajuda. Neste arqui­pé­lago de soli­dão indi­vi­dual, onde o uso do espaço é um abuso de poder, o Sofa of Solitude é uma solu­ção home­o­pá­tica, uma gai­ola sus­pensa car­re­gada de pes­si­mismo negro. O grito de SOS e a ina­bi­li­dade para comu­ni­car é a con­di­ção exis­ten­cial onde cada ten­ta­tiva para amar resulta fracassada.

Embora não tivesse nas­cido com o dom natu­ral para o dese­nho, as suas for­mas e cores resul­tam numa grande flui­dez e sen­su­a­li­dade. Que men­sa­gem pre­tende trans­mi­tir aos estu­dan­tes de design que tam­bém se sen­tem des­con­for­tá­veis no desenho?

O pro­cesso começa com a minha neces­si­dade de con­tar uma his­tó­ria. Primeiro escrevo um script onde o cli­ente, a loca­li­za­ção e os mate­ri­ais são os per­so­na­gens da minha his­tó­ria. A minha prin­ci­pal pre­o­cu­pa­ção é o sen­tido da his­tó­ria que estou a que­rer con­tar, os resul­ta­dos sur­gem como con­sequên­cia. A men­sa­gem que eu pode­ria trans­mi­tir seria: nunca con­fun­dir o meio com a men­sa­gem. O meio muda, a men­sa­gem não.

Consumo, sen­su­a­li­dade, sur­re­a­lismo, ambi­ente. Consegue colo­car tudo isso num só objeto de design?

Está, por acaso, a falar na minha peça Him & Her? (sor­ri­sos)

Texto de Carla Carbone

inte­ri­o­res da loja Stuart Weitzman, Roma

pro­jecto  Bisazza

 

 

 

 

 

 

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