Tabu

TABU de Miguel Gomes

Tabu é o monte de uma colónia portuguesa em África, no principio dos anos 60. Lá se instalaram jovens ricos e aventureiros que se divertem com corridas de automóveis, caçadas, bailes e festas. O amanhã é coisa que não lhes tira o sono, até que uma barriga começa a crescer – e com ela o peso de um amor ilícito – e um assassinato despoleta a revolta dos locais. Mas antes de Tabu há um prédio em Lisboa onde vivem três senhoras sozinhas que cuidam umas das outras porque na velhice não há muito que fazer. Uma delas está senil, mas é a que tem mais memórias. As outras não tiveram tempo para as construir porque passaram a vida ocupadas a tratar dos outros – uma porque era Santa e escrava, a outra porque queria ser santa e ativista política. É então a velha senil, Aurora (não a de Puiu, mas a de Murnau) que as encaminha até uma floresta artificial num qualquer centro comercial onde vão escutar uma história: a sua e a do monte Tabu. É o homem que Aurora lá conheceu que a conta, enquanto nós a vemos decorrer com os sons da selva, dos carros, dos animais, dos tiros, da água, das músicas, mas sem nunca ouvirmos as palavras que os personagens trocam à nossa frente.

Tudo o que temos são as memórias de Aurora – da aurora, da juventude, do paraíso – contadas pelo seu grande amor, com quem desenhava animais nas nuvens, passeava na savana e fazia amor clandestinamente. Esses foram os dias de paraíso, onde os meses passavam a voar. Depois veio a fuga, a deles e a dos retornados, dos dias que não sabem para onde ir e se arrastam sem um propósito. Mas África continuou presente na arquitetura, na decoração e na Santa que não fala porque cada macaco no seu galho. No monte Tabu os macacos andavam à solta, os crocodilos fugiam para o quintal do vizinho e eram tratados como filhos por quem não os podia ter. Antes a vida fazia-se de emoções pungentes e histórias exóticas. Depois cresce-se, parem-se crocodilos e crias, matam-se inocentes e escrevem-se cartas de amor que ficam por ler.

 Aventuras no quintal do vizinho

Pilar (Teresa Madruga) sente uma necessidade urgente de ajudar os outros, por isso quer acolher uma polaca (que foge dela) e ajudar Aurora (Laura Soveral). Santa (Isabel Cardoso), desprovida de sentido comunitário, faz apenas o serviço que lhe compete. Duas mulheres opostas que têm em comum uma vida desprovida de ação. Reconciliam-se por causa de Aurora e vão ser as espectadoras do seu filme, dos seus dias de paraíso (para outros o inferno). O paraíso está cheio de emoções que faltam às duas espectadoras desta história: desejo, aventura, mentira, remorso e morte. O crocodilo é o filho que Aurora e Ventura não podem ter, é a desculpa para se encontrarem – e o próprio marca o seu território e faz-se adotar por Ventura ao fugir para o seu quintal. O feto que germina na barriga de Aurora (Ana Moreira) simboliza a agitação crescente dos locais, que nós não vemos porque eles também não, mas está lá, floresce e rebenta, como rebentam as águas a Aurora.

Miguel Gomes nunca tinha ido a África. Foi lá a primeira vez fazer a repérage do filme, mas a sua ligação a essa terra é intrínseca e geracional (a sua mãe nasceu em Luanda), assim como a de muitos nós. E nós estamos sempre em África, mesmo quando estamos em Lisboa, porque há sonhos com macacos, há florestas de plástico num centro comercial do Cacém, girafas na Expo, e a história de um descobridor que se atira ao rio e cuja morte é festejada pelos indígenas (não se sabe se por ter vivido ou morrido).

Tabu explora as memórias de cada um, a memória coletiva da nossa história e da história do cinema. Utiliza uma estrutura bipartida, começa no presente para voltar ao passado, evidenciando que tudo são memórias e não factos, que estamos em território ficcional e não documental. Os personagens mexem os lábios, mas não sabemos o que estão a dizer, acreditamos no contador da história. Apenas o som da fauna e da flora é real (magnificamente trabalhado por Vasco Pimentel). A belíssima fotografia é de Rui Poças e o trabalho de Ana Moreira e Carloto Cotta é estrondoso, sem que deles ouçamos uma palavra. Tabu não é um filme mudo nem pretende exortar os grandes clássicos. Espero que o Michel Hazanavicius o veja e morra de vergonha pelo que fez em O Artista.

Texto: Inês Monteiro

Francisco Vaz Fernandes
No Comments

Post a Comment