orelha negra

Orelha Negra

Os Orelha Negra apresentam em Lisboa o seu novo álbum  dia 21 de Junho, às 21 horas, em Lisboa, no jardim do Palácio Braancamp, no Braun Cruzer Session by Myspace. Davide Pinheiro já ouviu e  escreveu que o segundo álbum da Orelha Negra desenvolve um som caracteristicamente instrumental em que o sample é peça essencial da linguagem. O estado de graça é para manter.

A vida vai torta, a linha é turva, o desemprego real atinge, aproximadamente, quase um em cada cinco portugueses mas a Orelha continua arregalada. Sam The Kid, Fred Ferreira, Francisco Rebelo, João Gomes e Cruzfader puxam a corrente de quem faz música pela música num segundo álbum em que “consegues ouvir o que já estava no primeiro como a soul mas também tens rock progressivo, anos 80…”, explica o primeiro. A cultura do sample continua a imperar como quando põe a música No Ar, em que um instrumental infiltrado pelo disco é acompanhado por uma voz portuguesa indecifrável, mas todo o disco é um exercício de descoberta. Há uma voz semelhante a Vítor Espadinha n’O Espelho. Do single A Luta, já sabíamos que o original era Superman dos brasileiros Fevers mas esse é um caso de estudo na forma como músicos e autores são homenageados pela Orelha Negra: “Honestamente, é sempre um tributo mas pode não ser tão simples. No nosso álbum, temos uma música popular portuguesa dos anos 80 mas o original não é grande coisa. Eu curto é aquela parte! Estou a recontextualizá-la, adoro essa palavra. Mas que um gajo respeita, respeita. Por exemplo, eu não gosto do refrão dos Fevers mas adoro aquela parte. O hip hop sempre foi isso. Agora, o tributo está na sensibilidade dos músicos. Posso pegar num sample e o tributo não está no original mas na manipulação”.

Há muito para reconhecer num álbum “mais denso e logo”, define o baixista Francisco Rebelo e em que os métodos de trabalho se alteraram. “No primeiro álbum, as canções foram construídas para uma ideia de concerto que culminou um disco. Desta vez, foi ao contrário: vamos fazer um disco e temos um concerto pela frente, que foi o do CCB. Manteve-se o lado experimental, de jam session, mas depois houve um apurar em termos de produção que nos fez ir procurar coisas que não tínhamos feito ainda. Experimentar outros sons e outras estéticas”, sustentou.

Quando se apresentaram publicamente após uma formação que remonta à construção da banda de suporte para Sam The Kid e que evoluiu depois para um colectivo de hip hop instrumental, os Orelha Negra foram rotulados de “supergrupo” pelo currículo dos envolvidos. O processo de crescimento sustentado que passou por etapas como um São Jorge esgotado, o Optimus Alive e a aclamação em Janeiro no Centro Cultural Belém diluiu essa imagem. “Como estamos a dar um passo de continuidade, essa ideia está a ficar para trás. Muitos dos supergrupos têm objectivos pontuais”, lembra Sam The Kid. “No fundo, fizemos tudo o que uma banda nova faz. Tocar em sítios pequenos, alguns com menos condições e com cachets foleiros. Também já nos receberam como “os putos que vêm para aqui chatear”, desenvolve Francisco Rebelo.

Som a som – sem renegar o silêncio e resistente à tentação de trabalhar em permanência com vozes – a Orelha tem multiplicado o número de ouvidos que a reconhece. Para Francisco Rebelo, trata-se de “uma questão de gestão” porque “o país é pequeno e às vezes há gajos que têm discos fixes mas que não resistem a todos os eventos e convites”. Por isso se protegem tanto, para “fugir ao esquema de ir tocar a todo o lado e depois correr o risco de não ter público”, complementa Fred. Por isso, são tão especiais e receberam, por exemplo, um viral da Nebula, uma agência que, ainda em fase de arranque, construiu um vídeo para a versão vocal de Since You’ve Been Gone. Nova mixtape está prometida mas sem data certa e é provável que os concertos ocupem quase em exclusivo a agenda da banda pelo menos até ao final do ano. Mas quando se fala de gente com esta flexibilidade e disponibilidade, tudo pode acontecer.

Texto de Davide Pinheiro para PARQ #34 Junho de 2012

http://www.youtube.com/watch?v=X0Km-p1yrBE&feature=related

Francisco Vaz Fernandes
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