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Perfume Genius x Put Your Back N 2 It

Com o segundo álbum Put Your Back N 2 It, o cantor de Seattle dá-nos muito que pensar. traumas, tribulações e emoções em carne viva misturam-se com vozes feridas e letras que cortam como facas a sua história de vida.

Perfume Genius é Mike Hadreas, rapaz de 30 anos natural de Seattle. Mike é um baladeiro de quarto, que se deu a conhecer ao mundo em 2010 com Learning, álbum de beleza espectral, onde vocais crus e trémulos se fundem com melodias simples de piano e viola, por vezes trocadas por sintetizadores, que se confrontam com letras densas e complexas, procurando desesperadamente um refúgio em sons com reverberação e penumbra. Algo entre o sussuro de Damien Rice, os ecos antárticos de Sufjan Stevens, a dor autoinflingida dos The XX e o piano fantasmagórico de Antony Hegarty num registo sonolento lo-fi.

Hadreas começou a escrever como terapia após um período de dez anos em que viveu em Brooklyn, onde ser refugiou no álcool e nas drogas e em tudo o que o vício esconde. O cantor é, no entanto, genial na articulação da tristeza com uma beleza inesperada e intimista, mesmo quando fala de temas duros como dependência, suicídio, trauma, comportamentos sexuais autodestrutivos ou da sua própria homossexualidade e a dificuldade de aceitação na sociedade.

Em fevereiro, Perfume Genius publicou o seu segundo álbum Put Your Back N 2 It, que deixa para trás o registo lo-fi para abraçar uma produção mais rica e cuidada, assistida pelo namorado Alan Wyffels, que deixa entrar esporádicos raios de luz na bruma densa que antes o envolvia. Uma coleção de 12 canções catárticas, de frio glaciar, mas frágil e terna na sua inocência. O otimismo aparece gota a gota, mas vai surgindo, timidamente, deixando-nos com uma doce sensação de conforto ao ver a luz ao fundo do túnel. Música que relembra Twin Peaks uma e outra vez, misteriosa e angustiante, sem traço de rancor ou fúria. Um turbilhão de sentimentos sobre morte e perversão, desespero e angústia que atrai como um íman nas teclas de um piano confidente. A banda sonora perfeita para quem se tenta manter à tona dia após dia e se debate, a todo o custo, para seguir em frente.

As letras hipnóticas de Put Your Back N 2 It são afetuosas e comoventes, mas são também surreais e grandiosas, recordando em tempos a universalidade dos contos de fadas, canções de folclore imaginário ou a espiritualidade de um gospel psicotrópico, que arrastam comparações com outros artistas como Cat Power, Bon Iver ou Thom Yorke.

 

O tema de abertura, “Awol Marine”, inspira-se num filme pornográfico amador que Hadreas costumava ver, com um velho e alguns prostitutos, em que um deles admite fazer aquilo para conseguir comprar os medicamentos da mulher. Com ele, o cantor procurou retratar o desespero e desumanidade que acompanham a adição e os limites para atingirmos o que queremos. Mike fala também de muitos dos problemas e dificuldades que os jovens homossexuais atravessam, em temas como em “17”, que descreve como uma carta de suicídio gay, dedicada a todos os adolescentes que sucumbem à dor do isolamento e preconceito, ou “All Waters”, em que anseia, frustrado, poder andar de mãos dadas com o namorado sem qualquer receio ou hesitação. Um desejo que parece ainda estar longe de realizar. No seguimento voltamos ao recorrente tema da prostituição e das pessoas que estão dispostas a deixar tudo e a anularem-se perante o outro, com medo do abandono (“Take Me Home”), do vício e overdose (“Floating Spit”) ou as relações sexuais entre homens (“Put Your Back N 2 It”). Num enternecedor momento de elogio à força da mãe que o ajudou a endireitar-se, ouvimos Mike em “Dark Parts” cantar um sentido “I will take the dark parts of your heart into my heart”.

Não se deixem enganar pela candura sedosa das canções. Put Your Back N 2 It é um álbum áspero e implacável que ressoa no íntimo de cada um de nós, explorando o lado mais negro e corrupto do ser humano. Se há algo que falha aqui, é a sensação de passar tudo demasiado rápido. Mas por outro lado, seremos nós capazes de pedir que Mike Hadreas dê mais de si em cada canção?

Texto: Pedro Lima para a PARQ #34 edição de Julho

 

 

Francisco Vaz Fernandes
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