SpaceGhostPurrp-Release-Album

SpaceGhostPurrp a quebrar as regras

SpaceGhostPurrp é o nome mais recente num universo em permanente expansão que nos diz que Nas foi provavelmente imprudente ao declarar que o hip hop tinha morrido… Ou talvez não… Há precisamente um ano, Andrew Nosnitsky desenhava nas páginas da Wire o mapa de um admirável mundo novo onde Lil B, os Odd Future, Clams Casino ou os Main Attraktionz eram os pontos cardeais. Na idade das redes sociais, a rua já não é o centro de uma cultura, mas o impulso de sobrevivência continua a ser importante. Talvez o hip hop ao qual Nas declarou o óbito tenha de facto desaparecido. Um hip hop feito de códigos rígidos – de comportamento, identidade social e sexual, de expressão – mas que continha em si mesmo a semente da revolução atualmente a decorrer e que, como é óbvio, não passa na televisão, mas num smartphone perto de si.

Tome-se o exemplo de SpaceGhostPurrp, nativo de Miami que segue o exemplo de Tyler The Creator e depois de um prolífico output digital aceita um contrato inicial com uma indie europeia: a XL no caso do homem do leme dos Odd Future, a improvável 4AD para o homem da Flórida. O facto do novo hip hop estar a surgir em labels inesperadas (Shabazz Palaces na Sub Pop, Main Attrakionz na Type de Peter Broderick, Xela ou Rene Hell) é o primeiro sinal de um constante quebrar de regras levado a cabo pela nova geração. O hip hop já batalhou por bairros e tempos houve em que uma editora era uma espécie de família alargada. As ideias do bairro ou da família desapareceram na idade do Tumblr e do Facebook. A geografia da cultura em tempos dividida entre as costas este e oeste também já não faz tanto sentido. Daí que SpaceGhostPurrp possa editar Chronicles of SpaceghostPurrp na etiqueta de Mark Lanegan, Grimes e Dead Can Dance (e estamos apenas a citar entradas de catálogo de 2012) sem que o delicado equilíbrio do universo seja afetado. E em Chronicles há temas com títulos como “Suck a Dick 2012”, “Get Ya Head Bust” ou “The Black God”, o que aumenta a estranheza da associação que em tempos foi o quartel general do dream pop.

http://www.youtube.com/watch?v=NBDOzmT0kYM&feature=relmfu

SpaceGhostPurrp nasceu a 1 de abril de 1991, precisamente no arranque da década que mais informa a sua visão particular deste som. Inspirado por Eazy E e pelo cada vez mais incontornável DJ Screw, Purrp soa como um MC envolto numa névoa alucinogénia permanente. Líder do seu próprio coletivo – a Raider Klan Mafia – Purrp move-se como se a atmosfera que o rodeia fosse feita de geleia e a sua música ecoa a estética gangsta dos anos 90 com um twist ainda mais negro. A essa equação soma-se um calão próprio, denso e por vezes indecifrável, sintoma dos novos territórios linguísticos que o hip hop agora ousa desbravar. Já não são as fronteiras do bairro, nem o calão de uma determinada cidade que sustentam esta nova versão de uma cultura veterana. Tudo se passa num ecrã em frente dos nossos olhos. Como escrevia Andrew Nosnitsky no já referido artigo da Wire, “o rap permanece a forma musical dominante da América juvenil, mas já não distingue um género, tendo-se transformado numa mera ferramenta de expressão”. Liberto dos códigos, das fronteiras e das tradicionais políticas de identidade, este novo rap emerge como uma tremenda força criativa, plena de invenção e sem o lastro ideológico de outrora. Talvez Nas tivesse de facto razão quando afirmou que o hip hop tinha morrido. Só que agora regressou das cinzas, transformado, como num filme de zombies. Como explica Purrp logo na faixa de abertura da sua estreia na 4AD, ele é apenas “a young ass n***a not giving a fuck”.

texto de Rui Miguel Abreu para Parq#34 ed Junho/Julho

Francisco Vaz Fernandes
No Comments

Post a Comment