Filomena Cautela -  Parq-9

Filomena Cautela (entrevista)

Filomena Cautela não gosta de rótulos e não vê qualquer contradição em ser atriz e apresentadora, em estar simultaneamente no teatro, no cinema e na televisão porque, em cada momento e em cada lugar, gosta de se sentir ela própria. A sua passagem às quartas-feiras pelo 5 para a Meia-Noite deu-nos a conhecer a sua espontaneidade. Cada vez que abria os seu grandes olhos, éramos brindados por pepitas de um fino humor mordaz. Confessos admiradores, falámos com Filomena Cautela sobre os seus interesses profissionais e sobre o facto de ainda acreditar em alternativas para a televisão nacional. Em breve, vai submeter-se a mais uma prova de fogo, novamente testada num magazine concebido pela atriz para a RTP 1. Estamos aqui para ver.

Já te vimos no teatro, no cinema, nas telenovelas e a apresentar programas televisivos. Nunca te sentiste múltipla?

Uau… Múltipla! De facto, nunca tinha pensado nisso dessa forma, mas acho que sim. Na verdade, por mais polémica que possa parecer, encontro uma raiz comum em todos esses trabalhos. É um prazer e, na realidade, um privilégio nos dias que correm poder aprofundá-los.

Sentes que são carreiras paralelas e intermitentes ou consegues estabelecer uma unidade e definir prioridades?

Não se trata de definir prioridades, trata-se de encontrar bons projetos. Quero poder escolher e poder lutar para conseguir boas personagens, bons textos, boas equipas e bons programas que me pareçam pertinentes e importantes para mim e para o que eu acho que deveria confrontar o público.

Achas que ainda tens outras competências que poderias explorar? Por exemplo, se te convidassem para entrar na lista de deputados de um determinado partido, aceitavas?

Nesta altura não. Considero a política um meio demasiado poluído e burocratizado para conseguir fazer parte dele. Lutar pelo que acho certo é importante, é algo que me move em quase tudo o que faço profissionalmente, mas não me vejo a ter a paciência suficiente para me conter na Assembleia da República. Acho que começaria aos berros, não teria de facto feitio.

Quando falas em confrontar o púbico, em gritar no parlamento, veio-me à cabeça se não terias vocação para atividades de intervenção?

Não acho que isso seja necessariamente uma vocação. Acho que todos os cidadãos têm uma opinião, ou porque se sentem injustiçados ou porque sabem que algo está mal. A sua voz só será ouvida se se queixarem. Todos temos o direito à resistência, à manifestação e devemos exercê-lo.

Essa consciência interventiva vem de tradição familiar ou é mesmo natural em ti?Talvez ambas. Na casa onde eu cresci sempre se promoveu o exercício da consciência e da reflexão. Acho que sempre fez parte de mim como pessoa e como artista olhar o mundo com uma lente questionadora.

Apesar de haver cerca de 36% de desemprego entre os jovens portugueses, tu fazes parte da exceção e conseguiste rapidamente impor-te em diferentes meios. Consideras-te uma pessoa de sucesso?

Não. Não gosto muito sequer dessa expressão. Acho que lutei muito por todas as oportunidades que me foram dadas e que tive também uma dose de sorte ao encontrar pessoas no meu caminho que acreditaram em mim. Mas tenho demasiado para aprender, para ver e para fazer, e acho que vou ter sempre.

 

Quando davas os primeiros passos no teatro, imagino que terias muitos sonhos e esperanças. Sentes que alcançaste bastantes coisas, ou muito ficou ainda para trás?

As experiências que tive ultrapassaram muitos dos meus sonhos. Aprendi a deixar-me surpreender e a reformular os sonhos. A nível profissional e pessoal.

Lembras-te de algum sonho que fosse mais forte no início da carreira?

Eu sonhava ser pintora, até descobrir o teatro. Passei depois a querer trabalhar com este ou com aquele ator, com este ou com aquele encenador, com determinados textos… Depois, passei a formular na minha cabeça um programa de televisão que, achei, seria a minha missão.

Acreditas que há espaço para programas televisivos fora dos estereótipos existentes? Na verdade, há muito pouca diversidade de propostas.

Acho que sim, que há. E se não há, deveria haver. Felizmente, existem ainda várias pessoas que ocupam cargos diretivos nos canais de televisão que acreditam que se pode e deve fazer televisão conscientes da sua importância no desenvolvimento de uma sociedade. O raciocínio não deve ser “o que existe é suficiente”, porque isso é falso e muito ignorante. Se dermos a experimentar um croissant a alguém que comeu pão a sua vida inteira ela pode estranhar de início mas, de certeza, não quererá menos do que isso no futuro.

És muito metódica a prosseguir objetivos ou, simplesmente, deixas que as coisas aconteçam?

Um bocadinho dos dois. É importante sabermos que caminho estamos dispostos a percorrer para chegar a um determinado lugar, mas o planeamento exagerado torna a vida numa grande chatice.

E quando sentes que as coisas estão a descarrilar, qual é para ti o remédio?

Os meus amigos, os meus livros e viajar. É um lugar comum eu sei, mas é assim mesmo.

E já alguma sentiste que estavas mesmo a descarrilar?

Sim claro, mas não gosto falar de coisas desse tipo.

Pelo número de concorrentes a castings de televisão, percebemos que alguns dos objetivos de muitos jovens da tua idade passam por serem conhecidos e tornarem-se figuras públicas. Como lidas com essa questão?

Acho absolutamente disparatado e está a transformar profissões importantes, que considero sagradas, em algo descartável e feio. A imagem que estão a passar é errada e vai destruir muitas vidas.

 

O 5 para a Meia-Noite foi, decididamente, um marco no teu percurso. O que a passagem pela programa te trouxe em termos de experiência?

Deu-me calo. Tudo pode acontecer quando se fazem diretos de 60 minutos num horário difícil e numa produção em que os meios poderiam ser sempre melhores. Tentar que tudo esteja bem, que os conteúdos sejam pertinentes… São demasiadas preocupações que só quem fez o programa no meu tempo pode saber. O 5 para a Meia-Noite foi mais um projeto em que colaborei que nasceu menosprezado e se tornou num caso sério de audiências e de revolução na programação. Deu-me muita alegria, deu-me pessoas que nunca vou esquecer e mostrou-me que existe um público sedento de conteúdos culturais e de desenvolvimento intelectual numa linguagem simples e de aproximação sem pretensiosismo.

Agora que  5 para a Meia-Noite voltou para o ar e para a RTP1, houve alguma razão para não continuares?

Houve muitas que falei na altura e outras que serão só minhas. Estou muito orgulhosa pelos meninos e pelo programa estar na RTP 1 a funcionar tão bem com novos apresentadores que muito admiro.

És uma pessoa que anda sempre à procura de mudanças?

Habituei-me à mudança, se é que isso faz sentido. Gosto que todos os dias sejam diferentes mas, claro, um dia imagino que isso será cansativo e desgastante.

Filomena Cautela vestida com calças em seda e top em pele LIDIJA KOLOVRAT. Sandálias com salto em madeira TRIPEN no atelier Lidija Kolovrat.

Texto: Francisco Vaz Fernandes

Fotografia: Javier Domenech

Styling: Madalena Pereira

Cabelos: Ricardo Memphus para Facto Bairro Alto

Maquilhagem: Silvia Ferreira para AR

Agradecimentos a Lidija Kolovrat pela cedência do espaço

 

 

 

 

 

Francisco Vaz Fernandes
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