Filomena Cautela (entrevista)

Filomena Cautela não gosta de rótu­los e não vê qual­quer con­tra­di­ção em ser atriz e apre­sen­ta­dora, em estar simul­ta­ne­a­mente no tea­tro, no cinema e na tele­vi­são por­que, em cada momento e em cada lugar, gosta de se sen­tir ela pró­pria. A sua pas­sa­gem às quartas-​​feiras pelo 5 para a Meia-​​Noite deu-​​nos a conhe­cer a sua espon­ta­nei­dade. Cada vez que abria os seu gran­des olhos, éra­mos brin­da­dos por pepi­tas de um fino humor mor­daz. Confessos admi­ra­do­res, falá­mos com Filomena Cautela sobre os seus inte­res­ses pro­fis­si­o­nais e sobre o facto de ainda acre­di­tar em alter­na­ti­vas para a tele­vi­são naci­o­nal. Em breve, vai submeter-​​se a mais uma prova de fogo, nova­mente tes­tada num maga­zine con­ce­bido pela atriz para a RTP 1. Estamos aqui para ver.

Já te vimos no tea­tro, no cinema, nas tele­no­ve­las e a apre­sen­tar pro­gra­mas tele­vi­si­vos. Nunca te sen­tiste múltipla?

Uau… Múltipla! De facto, nunca tinha pen­sado nisso dessa forma, mas acho que sim. Na ver­dade, por mais polé­mica que possa pare­cer, encon­tro uma raiz comum em todos esses tra­ba­lhos. É um pra­zer e, na rea­li­dade, um pri­vi­lé­gio nos dias que cor­rem poder aprofundá-​​los.

Sentes que são car­rei­ras para­le­las e inter­mi­ten­tes ou con­se­gues esta­be­le­cer uma uni­dade e defi­nir prioridades?

Não se trata de defi­nir pri­o­ri­da­des, trata-​​se de encon­trar bons pro­je­tos. Quero poder esco­lher e poder lutar para con­se­guir boas per­so­na­gens, bons tex­tos, boas equi­pas e bons pro­gra­mas que me pare­çam per­ti­nen­tes e impor­tan­tes para mim e para o que eu acho que deve­ria con­fron­tar o público.

Achas que ainda tens outras com­pe­tên­cias que pode­rias explo­rar? Por exem­plo, se te con­vi­das­sem para entrar na lista de depu­ta­dos de um deter­mi­nado par­tido, aceitavas?

Nesta altura não. Considero a polí­tica um meio dema­si­ado poluído e buro­cra­ti­zado para con­se­guir fazer parte dele. Lutar pelo que acho certo é impor­tante, é algo que me move em quase tudo o que faço pro­fis­si­o­nal­mente, mas não me vejo a ter a paci­ên­cia sufi­ci­ente para me con­ter na Assembleia da República. Acho que come­ça­ria aos ber­ros, não teria de facto feitio.

Quando falas em con­fron­tar o púbico, em gri­tar no par­la­mento, veio-​​me à cabeça se não terias voca­ção para ati­vi­da­des de intervenção?

Não acho que isso seja neces­sa­ri­a­mente uma voca­ção. Acho que todos os cida­dãos têm uma opi­nião, ou por­que se sen­tem injus­ti­ça­dos ou por­que sabem que algo está mal. A sua voz só será ouvida se se quei­xa­rem. Todos temos o direito à resis­tên­cia, à mani­fes­ta­ção e deve­mos exercê-​​lo.

Essa cons­ci­ên­cia inter­ven­tiva vem de tra­di­ção fami­liar ou é mesmo natu­ral em ti?Talvez ambas. Na casa onde eu cresci sem­pre se pro­mo­veu o exer­cí­cio da cons­ci­ên­cia e da refle­xão. Acho que sem­pre fez parte de mim como pes­soa e como artista olhar o mundo com uma lente questionadora.

Apesar de haver cerca de 36% de desem­prego entre os jovens por­tu­gue­ses, tu fazes parte da exce­ção e con­se­guiste rapi­da­mente impor-​​te em dife­ren­tes meios. Consideras-​​te uma pes­soa de sucesso?

Não. Não gosto muito sequer dessa expres­são. Acho que lutei muito por todas as opor­tu­ni­da­des que me foram dadas e que tive tam­bém uma dose de sorte ao encon­trar pes­soas no meu cami­nho que acre­di­ta­ram em mim. Mas tenho dema­si­ado para apren­der, para ver e para fazer, e acho que vou ter sempre.

 

Quando davas os pri­mei­ros pas­sos no tea­tro, ima­gino que terias mui­tos sonhos e espe­ran­ças. Sentes que alcan­çaste bas­tan­tes coi­sas, ou muito ficou ainda para trás?

As expe­ri­ên­cias que tive ultra­pas­sa­ram mui­tos dos meus sonhos. Aprendi a deixar-​​me sur­pre­en­der e a refor­mu­lar os sonhos. A nível pro­fis­si­o­nal e pessoal.

Lembras-​​te de algum sonho que fosse mais forte no iní­cio da carreira?

Eu sonhava ser pin­tora, até des­co­brir o tea­tro. Passei depois a que­rer tra­ba­lhar com este ou com aquele ator, com este ou com aquele ence­na­dor, com deter­mi­na­dos tex­tos… Depois, pas­sei a for­mu­lar na minha cabeça um pro­grama de tele­vi­são que, achei, seria a minha missão.

Acreditas que há espaço para pro­gra­mas tele­vi­si­vos fora dos este­reó­ti­pos exis­ten­tes? Na ver­dade, há muito pouca diver­si­dade de propostas.

Acho que sim, que há. E se não há, deve­ria haver. Felizmente, exis­tem ainda várias pes­soas que ocu­pam car­gos dire­ti­vos nos canais de tele­vi­são que acre­di­tam que se pode e deve fazer tele­vi­são cons­ci­en­tes da sua impor­tân­cia no desen­vol­vi­mento de uma soci­e­dade. O raci­o­cí­nio não deve ser “o que existe é sufi­ci­ente”, por­que isso é falso e muito igno­rante. Se der­mos a expe­ri­men­tar um crois­sant a alguém que comeu pão a sua vida inteira ela pode estra­nhar de iní­cio mas, de cer­teza, não que­rerá menos do que isso no futuro.

És muito metó­dica a pros­se­guir obje­ti­vos ou, sim­ples­mente, dei­xas que as coi­sas aconteçam?

Um boca­di­nho dos dois. É impor­tante saber­mos que cami­nho esta­mos dis­pos­tos a per­cor­rer para che­gar a um deter­mi­nado lugar, mas o pla­ne­a­mento exa­ge­rado torna a vida numa grande chatice.

E quando sen­tes que as coi­sas estão a des­car­ri­lar, qual é para ti o remédio?

Os meus ami­gos, os meus livros e via­jar. É um lugar comum eu sei, mas é assim mesmo.

E já alguma sen­tiste que esta­vas mesmo a descarrilar?

Sim claro, mas não gosto falar de coi­sas desse tipo.

Pelo número de con­cor­ren­tes a cas­tings de tele­vi­são, per­ce­be­mos que alguns dos obje­ti­vos de mui­tos jovens da tua idade pas­sam por serem conhe­ci­dos e tornarem-​​se figu­ras públi­cas. Como lidas com essa questão?

Acho abso­lu­ta­mente dis­pa­ra­tado e está a trans­for­mar pro­fis­sões impor­tan­tes, que con­si­dero sagra­das, em algo des­car­tá­vel e feio. A ima­gem que estão a pas­sar é errada e vai des­truir mui­tas vidas.

 

O 5 para a Meia-​​Noite foi, deci­di­da­mente, um marco no teu per­curso. O que a pas­sa­gem pela pro­grama te trouxe em ter­mos de experiência?

Deu-​​me calo. Tudo pode acon­te­cer quando se fazem dire­tos de 60 minu­tos num horá­rio difí­cil e numa pro­du­ção em que os meios pode­riam ser sem­pre melho­res. Tentar que tudo esteja bem, que os con­teú­dos sejam per­ti­nen­tes… São dema­si­a­das pre­o­cu­pa­ções que só quem fez o pro­grama no meu tempo pode saber. O 5 para a Meia-​​Noite foi mais um pro­jeto em que cola­bo­rei que nas­ceu menos­pre­zado e se tor­nou num caso sério de audi­ên­cias e de revo­lu­ção na pro­gra­ma­ção. Deu-​​me muita ale­gria, deu-​​me pes­soas que nunca vou esque­cer e mostrou-​​me que existe um público sedento de con­teú­dos cul­tu­rais e de desen­vol­vi­mento inte­lec­tual numa lin­gua­gem sim­ples e de apro­xi­ma­ção sem pretensiosismo.

Agora que  5 para a Meia-​​Noite vol­tou para o ar e para a RTP1, houve alguma razão para não continuares?

Houve mui­tas que falei na altura e outras que serão só minhas. Estou muito orgu­lhosa pelos meni­nos e pelo pro­grama estar na RTP 1 a fun­ci­o­nar tão bem com novos apre­sen­ta­do­res que muito admiro.

És uma pes­soa que anda sem­pre à pro­cura de mudanças?

Habituei-​​me à mudança, se é que isso faz sen­tido. Gosto que todos os dias sejam dife­ren­tes mas, claro, um dia ima­gino que isso será can­sa­tivo e desgastante.

Filomena Cautela ves­tida com cal­ças em seda e top em pele LIDIJA KOLOVRAT. Sandálias com salto em madeira TRIPEN no ate­lier Lidija Kolovrat.

Texto: Francisco Vaz Fernandes

Fotografia: Javier Domenech

Styling: Madalena Pereira

Cabelos: Ricardo Memphus para Facto Bairro Alto

Maquilhagem: Silvia Ferreira para AR

Agradecimentos a Lidija Kolovrat pela cedên­cia do espaço

 

 

 

 

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Últimas Notícias