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Wasted Rita (entrevista)

Muito por acaso encontramos  a Rita Gomes  a alma da Wasted Rita no facebook e de imediato ficamos presos aos seus desenhos. Depois de se ter visto um desenho da criadora do Porto, queremos seguir o rasto, como se tivéssemos encontrado um filão de ouro e explora-lo até à exaustão, conquistados pelo seu humor negro. Naturalmente quisemos conhecer a sua autora, tendo-lhe propondo então esta entrevista.

Consideraste uma pessoa sarcástica?
Não. De todo. Sarcasm is for suckers.

A tua personalidade influenciou o desenho ou sentes que neste momento é o desenho que marca a tua personalidade?
Os meus desenhos chegam a pôr-me com um humor de merda quando não consigo fazer aquilo que quero. Mas, mesmo nessas alturas, eu dou-lhes a volta. De resto, continuo, e vou continuar, a ser eu e a minha personalidade a comandar as tropas.
Talvez quando tiver 80 anos e me restarem apenas dois neurónios saudáveis a resposta seja diferente.

Consideras que no conjunto do teu trabalho acabas por ter um retrato social da tua geração, ou achas, mais genericamente, referir a sociedade ocidental?
Comecei a desenhar e a escrever para aliviar a minha cabeça. Parto sempre de um ponto de vista pessoal, tudo gira à volta de coisas que me acontecem ou que vou observando no meu dia-a-dia. Com o tempo fui-me apercebendo que muita gente de diferentes meios, idades, e de todo o mundo se identifica com aquilo que faço. Às vezes chego a achar insultuoso que tanta gente se identifique com algo que me é tão íntimo. Sempre fui fascinada pelo ser humano. Sempre gostei de ficar horas a ouvir e a observar pessoas. Sempre me deslumbrou sermos todos tão iguais com capas diferentes. Gosto de ficar de fora a ver, e o meu trabalho passa muito por tirar conclusões, criar teorias e transforma-las em desenho ou escrita. Por isso, é normal que aquilo que faço, faça sentido para tanta gente, e que seja uma reflexão da sociedade que me rodeia.

Como é o teu método de trabalho? Cumpres um horário que te impões ou trabalhas por temporadas conforme as ideias que te vão fluindo.

O meu método de trabalho passa por trabalhar até à exaustão e por ter tanto um espírito de sacrifício como uma força de vontade que nunca mais acabam. Trabalho do meu quarto para  o mundo, às vezes da secretaria, outras vezes directamente da cama (o que não é nada profissional da minha parte – mas tem resultado). Quando estou a trabalhar para um cliente tento ter um horário, mas acabo sempre por fazer horas extras. Quando o trabalho é pessoal faço-o conforme as ideias fluem; o problema é que, normalmente, fluem demasiadas e várias vezes ao dia, tornando-se impossível ter tempo para tudo em vinte e quatro horas.  Se me obrigo a ter um dia longe do trabalho, tenho insónias e dou por mim a sair da cama às 5 horas da manhã para criar algo muito rápido, libertar-me do peso na consciência e voltar a adormecer. É claro que isto está directamente relacionado com o facto de ter recebido uma educação católica com a propensão para fazer o Homem sentir-se culpado por tudo o que faz e por tudo aquilo não faz. Mas, por outro lado, é também uma reflexão da necessidade quase fisiológica que se tornou, para mim, a criação de algo novo todos os dias.
Por vezes é exaustivo e sufocante mas, ao mesmo tempo, a melhor coisa do mundo. Tipo uma relação amorosa. Até que a morte nos separe.

Tu desenhas vários tipos de criaturas, tens alguma que te aparece mais vezes, ou alguma pela qual tenhas uma maior estima?
Não. Não me lembro de alguma vez ter desenhado a mesma personagem mais que uma vez.
Fui treinada para não me prender a criaturas. Sou tipo o ZeZé Camarinha: seduzo-as, passo-lhes creme, dou-lhes uma, máximo duas, noite de amor e depois deito fora. Com duas diferenças: um – nunca engravidei nenhuma, dois – eu sou paga para as desenhar, ele provavelmente tem de pagar para as fazer.

Em termos de expressão artística, em que momento achas que o teu estilo esta definido se assim podemos falar genericamente?
Mas ainda se enfiam estilos e expressões artísticas dentro de momentos? Que seca.
Se estabeleci, desde muito cedo, a mim própria alguma regra de trabalho foi precisamente  não ter regras, não desperdiçar tempo a pensar muito nas coisas e não adoptar um estilo.
Se existe nome para o meu estilo deve ser algo como ‘’anestilismo’’. Acabado de inventar, é um estilo que recebe estímulos de todos os outros estilos, mas que se está um pouco a borrifar  para eles, passa mais tempo a fazer do que a pensar em como fazer, e que se mantém afastado de rótulos.
É claro que existem palavras e expressões que estão profundamente enraizadas no meu trabalho e que podem ajudar a defini-lo: rudez, indelicadeza, sarcasmo, punk, descuido, espontaneidade, politicamente incorrecto, provocante, irreflectido, crítico e com tomates.
Mas são apenas palavras. Não há nenhum momento que o defina a não ser o agora.

Quais os criadores que mais te influenciaram?
Bem, o Henry Rollins e a Kathleen Hanna, os meus melhores amigos na adolescência. A Barbara Kruger e a Jenny Holzer, as gajas mais fixes do bairro. O Nietzsche, o Sartre, o Debord e o Duchamp, os vizinhos de cima. O Woody Allen e o Morrissey, (quando tiver 50 anos, vou ser uma mistura de ambos, com um toque de Daria Morgendorffer). O Jason Shevchuk e o Rob McElhenney, como mestres: um do punk-rock, o outro da comédia nonsense. E, por último, mas não menos importante, o criador de todo o universo: Deus.

http://wastedrita.com/

 

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Francisco Vaz Fernandes
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