LEJOY_PARQ_LTISM-02

João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata

O cinema português volta a ganhar destaque, desta vez no Festival de Locarno, onde a longa-metragem A Última Vez Que Vi Macau, da dupla de realizadores João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, foi reconhecido com o Boccalino d’Oro para melhor realização, distinção atribuída por um grupo de jornalistas e críticos de cinema. Recebeu ainda uma menção especial do júri do Festival de Locarno, especialmente endereçada à “extraordinária” personagem Candy, pela “sua poderosa presença através da ausência, que ressoou para o júri como representante da imensa coragem do cinema português num tempo em que as faltas dos governos e dos sistemas sociais ameaçam a arte cinematográfica no mundo inteiro.” O filme começou por ser um documentário sobre Macau, tendo por  base as memórias “ficcionais” do território onde João Rui Guerra da Mata residiu na infância, mas acabou por se tornar numa ficcção com ambiente de film noir. Encontrámo-nos com os realizadores João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, com 20 anos de trabalho comum, para conhecer todo o seu processo de produção que conduziu até A última vez que vi Macau.

Em A última vez que vi Macau, pela primeira vez, aparecem os dois a assinar um filme. A que se deve essa mudança?

João Rui Guerra da Mata (JRGM): Na verdade, não é a primeira vez. Em 2007, o João Pedro convidou-me para co-realizar a curta-metragem China China, que partiu de uma ideia original minha e de um argumento escrito pelos dois. Em 2011 realizámos a curta Alvorada Vermelha, filmada em Macau. Sinceramente, não penso que haja qualquer mudança, nestes casos fazia sentido assinarmos os dois.

João Pedro Rodrigues (JPR) : Sim, nada mudou realmente. O João Rui sempre trabalhou nos meus filmes, fosse como ator, diretor de arte, argumentista ou assistente de realização. No caso das duas curtas e desta longa, A Última Vez Que Vi Macau, que ambos realizámos, achámos que fazia sentido assinarmos em conjunto.

De qualquer forma, continuam a aparecer filmes assinados individualmente como é o caso da curta-metragem O que arde cura, do João Rui. Como convivem com a situação de fazerem filmes a dois e fimes individuais?

JPR: O João Rui escreveu o argumento, no qual eu colaborei, concorreu ao ICA, teve o subsídio e realizou o filme. Eu realizei a curta Manhã de Santo António, que foi o filme de encerramento da Semana da Crítica do último Festival de Cannes, e o João Rui foi o diretor de arte. Ambos produzidos pela Blackmaria do João Figueiras, assim como a longa. Eu continuarei a realizar os meus filmes e a co-realizar filmes com o João Rui.

JRGM: O João Pedro é o ator de O que arde cura, a minha primeira curta a solo. Eu tinha sido o ator de Parabéns!, a sua primeira curta. Continuarei a trabalhar nos filmes do João Pedro como sempre fiz. A nossa colaboração sempre existiu, continuará igual.

Existem cada vez mais casais de artistas que acabam por assumir uma espécie de estética dual. Pensam que isso resulta de uma vantagem criativa ou tem um sentido prático ou, mesmo, empresarial das carreiras?

JPR: Assinámos filmes juntos mas não quer dizer que, a partir de agora, todos os nossos filmes sejam realizados pelos dois. Vou continuar a realizar sozinho, aliás, estou neste momento a preparar uma nova longa-metragem chamada O Ornitólogo, que só não está a avançar mais depressa porque o subsídio que me foi atribuído há mais de um ano ainda não foi libertado pelo ICA [Instituto de Cinema e Audiovisual].

JRGM: Vivemos juntos há 20 anos. Existe uma cumplicidade muito grande e uma convergência de gostos. Claro que que isso é uma vantagem artística e tem um sentido prático, não porque seja mais fácil trabalhar com quem se vive mas, porque existe uma complementaridade. Em relação ao “sentido empresarial das carreiras” não é um assunto que considere ou tenha, para mim, qualquer interesse. Só os filmes interessam, só o cinema interessa.

Este filme foi pensado para ser um documentário mas acabou por se transformar numa ficção. Em que momento o filme sofreu esta evolução e que mudanças tiveram que operar para a concretizar?

JRGM: Concorremos e ganhámos um subsídio para realizar um documentário sobre Macau, ancorado nas minhas memórias da infância vivida em Macau e nas memórias do João Pedro que, sem nunca ter ido a Macau, conhecia o território através do cinema, da literatura e da pintura. Desde o início partimos da premissa de que todas as memórias são ficções e este filme talvez seja uma ficção transvestida em documentário ou um documentário transvestido em ficção…

JPR: Fomos três vezes a Macau, ao longo de três anos. Logo na primeira vez, percebemos que não nos interessava fazer mais um documentário sobre Macau, assim como não nos interessava filmar o “exótico”, só pelo simples facto de ser “exótico”. O território inspirava-nos ficções… Foi como se Macau “falasse” connosco e nos orientasse pelo caminho a seguir.

E, em termos financeiros, que ginástica tiveram de fazer para o concretizar, imaginando que um orçamento para um filme documental seria bem menor do que uma longa metragem exige?

JPR: Embora tenhamos tido os apoio logísticos da Fundação Oriente e do Instituto Cultural de Macau, sem os quais teria sido muito difícil fazer este filme, a verdade é que só tínhamos o dinheiro do subsídio para documentário. Em termos práticos, isso refletiu-se na composição da equipa de filmagens, ao todo éramos seis pessoas. Nós os dois, a Leonor Noivo, que exercia várias funções, entre elas, assistente de realização, produção e anotação, o Nuno Carvalho e o Carlos Conceição (em períodos diferentes) na captação de som, a Filomena Silvano como consultora cientifica e, por vezes, uma tradutora chinesa. Embora tenha sido muito cansativo, o facto de ser uma equipa muito reduzida permitiu-nos ter uma liberdade extraordinária. Em Portugal chamámos o meu diretor de fotografia de sempre (e também da curta do João Rui), o Rui Poças, e uma equipa de maquinistas e eletricistas para filmar uma cena essencial do filme, o número musical com a Cindy Scrash.

JRGM: Ao longo desses três anos, quando vínhamos a Portugal, visionávamos e catalogávamos o material filmado. Tínhamos 150 horas de material e queríamos fazer uma longa-metragem relativamente curta, à maneira dos filmes de série B. Durante a montagem – o filme foi montado por nós e pelo Raphaël Lefèvre – a produtora francesa Epicentre Filmes, que distribuiu a maior parte dos filmes do João Pedro em França e vai distribuir este filme, aliou-se à Blackmaria como co-produtora e, recorrendo a subsídios franceses, originou a entrada de algum dinheiro, numa altura em que o ICA está completamente bloqueado. Depois, a Escola de Artes Le Fresnoy – Studio National des Arts Contemporains, onde o João Pedro foi professor no ano letivo de 2010/11, também entrou na produção. Sem o apoio francês todo o processo teria sido mais complicado, senão impossível.

O filme é uma viagem às memórias de infância do João Rui Guerra da Mata. Como foi viver o impacto entre as imagens da memória e aquelas que a realidade oferece? Em que medida isso condicionou o desenvolvimento da narrativa?

JRGM: Se me permites uma correção, o filme não é uma viagem às minhas memórias. A última vez que vi Macau é um filme que tentámos que fosse lúdico, ambientado num clima entre o film noir, a ficção científica e a série B, onde entram algumas memórias pessoais que se intrometem entre o documentário e a ficção. Dito isto, passaram 30 anos desde que eu saí de Macau sem nunca mais lá ter voltado, nunca imaginei encontrar o território igual ao tempo em que lá vivi. Considero que as memórias são ficções, vão variando de acordo com os nossos interesses mas a verdade é que Macau está muito diferente, a área do território quase duplicou, a expansão urbanística é assustadora. Se existem algumas considerações e critícas a Macau no nosso filme isso deve-se a eu não concordar com algumas decisões que os últimos governantes portugueses tomaram, assim como não concordo com algumas decisões dos governantes chineses. Acho, por exemplo, inadmissível que praticamente ninguém fale português, tendo em conta que Macau esteve sob administração portuguesa durante 400 anos. Estas considerações pessoais tinham de afetar a narrativa porque, embora seja uma ficção, o personagem principal tem o meu apelido e, no fundo, são as minhas recordações do território.

Como surge a personagem Candy e porque escolheram o mesmo ator de Morrer como um homem?

JPR: A Cindy é uma atriz, se me permites a correção.

Obviamente, porque escolheram novamente a Cindy Crash?

JPR: Acho que a Cindy tem algo que vem do passado, tanto de Hollywood como da trupe de atores do Fassbinder nos anos setenta, uma melancolia que desagua na alegria, é das pessoas mais divertidas e profissionais que conheço.

JRGM: Nós adoramos a Cindy Scrash! Ela é uma superstar, no sentido Warholiano, a nossa Cindy Superstar, transvestida de Candy Darling, transvestida de Jane Russell!

No filme Morrer como um homem, apesar de ficcional, havia várias interferências do quotidiano underground lisboeta, tanto nas personagens focadas, como na escolha dos atores. Em que medida o documental despoleta o caráter ficcional do vosso cinema?

JPR: Os meus filmes partem sempre de uma investigação sobre a realidade. Depois o que me interessa é transfigurar essa realidade mas partindo sempre do concreto, das pessoas e dos lugares.

Já li várias declarações vossas nas quais refutam que a vossa obra seja colocada numa categoria de cinema gay. Em que medida isso poderia condicionar a leitura do vosso cinema?

JRGM: Não concordo com a designação de “cinema gay”, prefiro “cinema queer”. Objetivamente, existe cinema queer e ainda bem que assim é, no entanto, acho todos os rótulos, sejam eles quais forem, demasiado redutores. Os festivais de cinema queer, por exemplo, são muito importantes na medida que permitem dar visibilidade a uma comunidade e a filmes que, de outro modo, dificilmente seriam vistos e o cinema existe para ser visto. Por exemplo, minha curta-metragem O que arde cura, que foi premiada no Festival de Locarno, vai passar com o Parabéns!, do João Pedro, no Queer Lisboa deste ano, depois de ter tido estreia no IndieLisboa. E isso deixa-me muito feliz.

JPR: Nunca fiz cinema para caber numa ou determinada caixa ou armário, se assim lhe preferires chamar.

O vosso cinema tem tido a capacidade de criar imagens paradoxais que alargam os estereótipos mais enraízados na sociedade. Em que medida pretendem abanar o universo em que vivemos?

JPR: A minha ideia nunca foi abanar nada nem ninguém, foi antes ter um ponto de vista pessoal em relação às personagens, histórias e maneira de fazer cinema. É óbvio que quero falar de coisas que me inquietam, os meus filmes são sempre, e irremediavelmente, pessoais, mas não quero com isto dizer que os faço para mim, tento é ser honesto comigo próprio pois acho que é a única maneira de chegar aos outros.

JRGM: Todos os assuntos devem ser falados, discutidos livremente… Nenhum assunto deve ser tabu. Se isso é, ou não, abanar o universo, não sei, talvez seja.

Ganharam vários prémios em Locarno, o que trouxe grande visibilidade ao vosso mais recente filme. Qual vai ser a trajetória imediata em termos de divulgação?

JPR: Depois do Festival del Film Locarno, onde obteve uma menção especial do júri e o prémio Boccalino d’Oro da crítica independente, A última vez que vi Macau vai ser exibido no Toronto International Film Festival (TIFF), no New York Film Festival (NYFF), no Vancouver International Film Festival (VIFF), no Festival do Rio de Janeiro e no Busan International Film Festival (BIFF) na Coreia do Sul, o maior festival de cinema asiático do mundo.

JRGM: Já em 18 de Outubro, vai ser possível ver o nosso filme em Lisboa. A ÚLTIMA VEZ QUE VI MACAU será o filme de abertura do Doc Lisboa, onde está a concurso na Competição Internacional. E existem mais festivais internacionais já confirmados mas ainda não temos autorização para falar deles.


Qual o vosso próximo projeto?

JRGM: Em co-realização, estamos a filmar uma curta para o Festival de Vila do Conde intitulada Mahjong. É uma ficção que se passa na Varziela, nos arredores de Vila do Conde, a maior comunidade chinesa do norte de Portugal. E temos um subsídio aprovado pelo ICA para outra curta em Macau que se vai chamar Hotel Central. Isto quando o dinheiro for desbloqueado. A irresponsabilidade de extinguir o Ministério da Cultura veio complicar ainda mais as coisas.

JPR: Estou a terminar uma curta encomendada por Guimarães Capital da Cultura e a preparar uma nova longa intitulada O Ornitólogo.

Qual o vosso top 5?

JRGM: Assim de repente… Vertigo, de Hitchcock, o Cancioneiro de D. Dinis, Ramones dos Ramones, Grande Palácio Hong-Kong em Lisboa, Whisky Sour, preparado pelo Bruno Abreu no Baliza Bar.

JPR: Não consigo fazer um top 5, a Ásia é o meu top five

Texto Francisco Vaz Fernandes

Fotografia de J. Sousa / LE-JOY

Styling Paulo Cravo


João Pedro Rodrigues com Fato de gola clássica de trespasse simples de dois botões azul escuro, DRIES VAN NOTEN, camisa de popeline branca com encaixe frente cor bege, DRIES VAN NOTEN, laço preto. Tudo naWrong Weather.

João Rui da Mata com Fato com gola smoking azul escuro DRIES VAN NOTEN, camisa branca, Wrong Weather, laço azul escuro, DRIES VAN NOTEN. Tudo na Wrong Weather.

Agradecimentos a gerência do Hotel Infante Sagres, Porto

Francisco Vaz Fernandes
No Comments

Post a Comment