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Days of Heaven de Terrence Malick

Terrence Malick é uma espécie de poeta visionário que trilha a relação entre duas naturezas: a orgânica e a natural. Estudou filosofia em Harvard e redigiu uma tese sobre a concepção do mundo. Em 1969, traduziu o ensaio “The essence of reasons” (1929), de Martin Heidegger. Ainda nesse ano, entrou na 1ª turma do Centro para Estudos Fílmicos Avançados do American Film Institute, em Los Angeles. Os seus filmes clamam a urgência por recapturar a totalidade perdida do ser, um estado de integração idílico com o natural e ‘O Bem’ dentro e fora de nós.

Natureza e Alma funcionam como elemento unificador, que caminha lado a lado com o mundo. A voz interior dos personagens fala frequentemente do Homem como um ser que partilha uma “grande alma” para “tocar a glória” onde “todas as coisas brilham”. É nestes termos que devemos entender a “calma” e “imortalidade” sugeridas na sua obra. Depois de Badlands, passou a congregar representações visuais da natureza absolutamente esmagadoras, especialmente da luz filtrada através das árvores compridas, da relva a movimentar-se ao sabor do vento, do sol a iluminar a paisagem. É através dessas representações que o realizador expressa o seu reconhecimento do mundo como um paraíso perdido, entre a escuridão e a morte, mas aberto à redenção através do altruísmo individual.

Em Days of Heaven, as imagens da natureza interligam-se com as ações dos protagonistas, ao mesmo tempo que fornecem um correlativo objetivo dos seus estados emocionais, antecipando-os.  Passado no Texas, durante a 1ª Grande Guerra, contém todos os elementos do western, sem que nenhum desempenhe um papel-padrão na narrativa. Existe a tarefa de trabalhar a terra, mas é realizada por trabalhadores migrantes. Há um herói “oficial” (o proprietário da terra) – que falha na sua tentativa de ‘purificação’ – e um herói fora-da-lei (Bill), que é punido, ao invés de resgatado. Há ainda uma voz-over, a de Linda, que não fornece o tipo de apropriação normalmente disponibilizado por esse dispositivo, devido à perspectiva peculiar e naïve que tem sobre os eventos, escusando-se mesmo a comentar cenas fulcrais da acção.

O que mais me fascinou em Days of Heaven foram as ligações à pintura de Hopper e Andrew Wyeth. Já tínhamos visto Hitchcock apropriar-se de uma das casas de Hopper n’ Os Pássaros, mas Malick leva essa reapropriação muito mais longe (e um ano depois é Woody Allen que dá vida à Queensborough Bridge, em Manhattan). A história e percurso dos 3 ‘irmãos’ é dramaticamente tocante: Bill quer tudo e acaba por ficar sem nada, levando todos à desgraça e à ruína. Um filme muito diferente daquele que o antecedeu e do que o precedeu, onde Malick está nitidamente à procura de algo que levou 20 anos a desenvolver.

 Texto de Inês Monteiro

 

Francisco Vaz Fernandes
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