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A Triologia Neo-realista de Rossellini

Ainda as consciências do Mundo não tinham recuperado do choque da bomba atómica, já o cinema começava a sua fuga, na tentativa de trilhar um futuro melhor. Depois da época triunfal dos estúdios americanos, o cinema embrenhou-se na realidade. Um cinema do encontro, da revelação e de combate, que privilegiou a representação, e ao qual a modernidade vai buscar influências. Todas as Novas Vagas que surgiram no início da década de 60, derivam desta proposta italiana que deu asas à arte de fazer cinema, depois da barbárie da 2ª G.G.

Roberto Rossellini  destacou-se no neo-realismo por possuir uma conceção da realidade, inspirada na improvisação, na recusa do argumento detalhado, na estrutura narrativa elítica, na imprevisível motivação das personagens, e no uso de planos gerais e de conjunto, em detrimento de grandes planos. Realizou doze filmes num período de dez anos e é inevitável atribuir-lhe o título de pai do neo-realismo. Quando iniciou aquela que ficou conhecida como a trilogia neo-realista, sabia não poder contar com estúdios ou cenários. Os recursos eram mínimos, mas, a partir deles, confrontou o cinema e o mundo com a realidade de ruínas, caos e decadência.

 

ROMA, CITTÀ APERTA (1945)

Fala da procura de liberdade, conseguida com a vitória sobre a ignorância, as paixões, a dor e a morte. Exemplo disso, é a cena final, quando as crianças, que preenchem quase todo o filme, caminham sobre a vista da abóbada de S. Pedro, apontando a liberdade sobre a via católica, como que uma via de fraternidade universal.

Roma é cidade real em toda a sua sujidade e tinha sido libertada apenas dois meses antes quando o realizador começou a filmar Cidade Aberta. A história decorre durante os últimos dias da ocupação nazi e tem como tema principal a Resistência. Pina e Don Pietro são os heróis que sacrificam as suas vidas pelos ideais em que acreditam. Pina (Anna Magnani) é viúva e tem um filho pequeno e outro na barriga, resultado da relação com Francesco, membro da Resistência Italiana. A sua atitude perante a vida confere-lhe uma superioridade moral que faz dela o espírito ideal da mulher italiana, dotado de força, sinceridade e compromisso. É ela a grande heroína desta história: luta sem desistir e toma conta da família sem adotar a postura de mãe mártir. É ela que assalta a padaria e morre, grávida e cheia de vida, ao perseguir o carro nazi que leva Francesco. A mulher não faz a guerra, mas sofre mais do que os homens, e a luta que vemos no ecrã não é a das trincheiras, mas a das pessoas que combatem por uma existência mais digna. A morte da mulher do povo, do resistente comunista e do padre podem encarar-se como uma espécie de união humana onde acontecimentos como este são precisos para alcançar a liberdade final. Os soldados que matam Pina são interpretados por soldados alemães presos depois da guerra. Este é um excelente exemplo daquilo que o cinema neo-realista tem para nos oferecer em relação ao não-actor. O papel destes soldados é de extrema importância se pensarmos que nada pode ser mais real do que alguém que não está a representar, mas a cumprir ordens.

O neo-realismo de Rossellini “resume-se em três palavras: amor ao próximo”. Interessa-lhe dizer a verdade sobre a Itália do pós-guerra: o desemprego, a dureza da vida nos campos, a delinquência, a condição feminina, etc. “A força deste filme consiste em fazer sair os heróis, não de hipotéticos desenvolvimentos metafísicos, mas sim de uma dolorosa e visível conquista de dignidade. O caráter quase simbólico das personagens não foge nunca ao realismo da autenticidade; pelo contrário, ilumina do interior uma situação extrema que, ao reunir fatos precisos e datados, consegue alcançar a violenta transparência da grandeza trágica” (Freddy Buache, Le Cinema Italien)

 

PAISÀ (1946)

Filme de guerra por excelência e da libertação (embora o caminho até ela se mantenha manchado de morte e traição), onde encontramos a tentativa de a obter, não só por parte dos italianos, como também pelos americanos, tentando compreender alguma coisa que permita ultrapassar diferenças culturais e étnicas. No final, o cerco fecha-se em volta dos resistentes e termina com uma fileira de corpos amarrados e atirados à água pelos soldados nazis, enquanto uma voz nos diz: “quatro meses mais tarde a guerra tinha acabado” – a morte como sacrifício necessário para alcançar a liberdade.

 

GERMANIA ANNO ZERO (1948)

Dedicado à memória do seu filho, tem como protagonista o jovem Edmund e realça novamente o reflexo da morte que culmina no seu suicídio, resultado do desespero associado aos restos do regime nazi – o fim da esperança na liberdade. Observamos uma cidade material e moralmente destruída através dos olhos de uma criança que nos grita o seu sofrimento, vindo de pecados de outra gente. Alemanha Ano Zero tenta reproduzir o Inferno, arriscando dizer que para alcançar o Paraíso seria necessário atravessar todo este caos e conhecer verdadeiramente a experiência real até chegar ao sonho.

A trilogia de Rossellini sobre a 2ª G.G. é dotada de uma aura de sacrifício heróico de pobres inocentes que são devorados pelo sistema. Todos os episódios de Paisà terminam tragicamente: os americanos tentam ajudar os italianos, mas a diferença de perspetivas faz com que não consigam comunicar. Em Germania, ambas as gerações (a antiga e a nova – o avô e o neto) estão condenadas à destruição. A desagregação da família retrata a perda de ideais. Em Roma, Città Aperta, a inocência de Pina levou-a à morte, o padre que luta pela justiça, adotando os ideias comunistas, é fuzilado, e Marina vende a sua moralidade para obter conforto e se afogar na loucura, por ter denunciado o amante. Estes sacrifícios cultivam as sementes de um regime mais digno.

Texto de Inês Monteiro

Publicado na edição 36 da revista Parq Outubro de 2012

Francisco Vaz Fernandes
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