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Clones, Cinema Gore a Portugues

Pedro Florêncio e Luís Henriques ganharam uma Menção Honrosa no MotelX de 2009, com ‘Papa Wrestling‘ e a sua jovem filmografia, repleta de sangue falso comprado na loja do chinês e de um humor inesperado que tem marcado presença em vários festivais lá fora. Depois de uma Masterclass e de um Workshop, que apresentaram na passada 6ª edição do MotelX, quisemos conhecer um bocadinho deste gore muito português. Ainda estamos vivos.

 Contem-nos lá, como é que se conheceram e como começaram a fazer filmes?

 Luís Henriques: Fazemos parte de uma pequena produtora chamada “Clones”. Somos cinco: eu, o Pedro, a Núria, o Fernando e agora o Tiago.

Pedro Florêncio: Foi como qualquer outro grupo de amigos que, em vez de se juntar para sair à noite, juntou-se para fazer filmes, assim, naturalmente. Depois, para nos levarmos um bocado mais a sério, escolhemos um nome e tentámos seguir um estilo e uma marca. Tem resultado dentro de certos nichos, como é o caso do festival Motelx.

Querem fazer sempre cinema de terror?

 P. F.: Não. Nós temos um estilo que tem muito a ver com o humor e com o absurdo, e isso consegue ser bem explorado através do gore, porque ele é mais absurdo do que assustador. Entrámos por aí, de forma natural, através do ‘Papa Wrestling’, a nossa 1ª curta. Agora, queríamos disparar noutras direções, sempre tentando evoluir dentro do nosso estilo, não necessariamente do género. São duas coisas um bocado diferentes, mas das quais, por vezes, é difícil descolar.

O ‘Papa Wrestling’ foi o primeiro filme que fizeram. Como foi quando ganharam a Menção Honrosa no Motelx? Mudou muita coisa??

 P. F.: Mais que a Menção Honrosa, foi o impacto que teve, porque não fazíamos ideia de que o filme ia ter uma relação tão óbvia com o público. A curta foi exibida antes de um filme espetacular, o ‘Re-Animator’, do Stuart Gordon, e aí percebemos que as pessoas se identificavam com aquele tipo de humor. Nunca previmos isso. Depois, a Menção foi o culminar desse festival em que vivemos o êxtase. Desde então, só queremos repetir essa sensação, por isso é que temos feito filmes. (risos)

O filme também esteve em vários outros festivais, especialmente lá fora. Conseguiram estar nesses festivais e perceber a reação das pessoas?

 P. F.: Sim, acabámos por perceber que não seria só no Motelx que poderíamos ter sucesso. Tivemos algumas desilusões a nível nacional, porque nunca achámos que fôssemos ser recusados em tantos festivais mais medianos ou provincianos do país. E tivemos algum receio do salto internacional. Mas depois, lá fora, aconteceu a mesma coisa. Em Londres há um festival que é o FrightFest, que nos acolheu exactamente da mesma maneira, em termos de relação com o público. Também conseguimos criar um culto e as pessoas sabem quem nós somos quando lá vamos, como aconteceu no ano passado com o ‘Banana Motherfucker’.

 

Tiveram muitas recusas?

 L. H.: Tivemos algumas e mais cá dentro do que lá fora, basicamente.

P.F.: Por exemplo, em Espanha aceitam-nos em todo o lado, porque eles têm uma grande cultura de cinema fantástico e de terror. É mesmo inacreditável, só comecei a perceber isso à medida que fomos recebendo prémios.

Como se organizam em termos de equipa? Fazem todos tudo ou há alguma função para a qual se sentem mais inclinados?

 P. F.: O que nos define é sermos um bocado anárquicos. Somos todos criativos, mas depois, em cada projecto, cada um faz mais uma coisa que outra e, no final, é consoante isso que atribuímos os créditos. A nível de direção criativa, vamos sempre respeitando a rotação. Fomos sentindo espaço para alterar e não se instalou uma regra.

Porquê o nome “clones”?

 P. F.: É assim meio misterioso…

L. H.: Está relacionado com a nossa forma de trabalhar. Nós somos bastante parecidos. E como trabalhamos todos nas mesmas funções, basicamente somos clones uns dos outros.

De onde é que vêm as vossas ideias? O que é que vos inspira – filmes, realizadores?

 P. F.: A questão de sermos cinco e de sermos parecidos, mas diferentes, faz com que haja um nível de exigência acima da média. Noutros projetos há um líder, há aquela coisa de ter um realizador que direciona o filme e uma equipa que o apoia. No nosso caso, funcionamos um bocado como a Pixar, um conjunto de criativos onde cada um estuda até ao limite o potencial da ideia falhar. Diria que algumas influências que nos aproximam são, por exemplo, o Stuart Gordon e a série Arrested Development.

Estudaram em alguma escola de cinema? Sentem que isso foi fundamental?

 P. F.: Sim, eu estudei na ESTC ,e isso ajudou-me. É muito fácil ser-se crítico em relação à escola de cinema, especialmente porque a película está a acabar e porque não existe realmente um cinema português. Existem autores portugueses. É fácil recusares-te a integrar naquele sistema, mas a escola é muito boa a nível teórico e de bagagem cultural. Gostei bastante porque me obrigou a ser mais disciplinado. Acho que a escola é fundamental, na relação que tem com o património de cinema em Portugal.

Como produzem os efeitos especiais? Tiveram alguma formação nessa área ou fazem tudo de improviso?

 L. H.: No início, trabalhámos com uma equipa de artes plásticas que nos deu muitas dicas e coisas como moldes para cabeças de látex, etc. O Fernando é o que se dedica mais a essa parte. Depois, há sempre a Internet…

P. F.: Basicamente, desde o início que reciclamos os mesmos efeitos especiais e que tentamos fazer coisas que funcionem com coisas “rascas”. Nem pensamos em efeitos especiais difíceis. E, a esse nível, já está tudo praticamente esgotado, em termos de originalidade.

Como é que vêm o cinema de terror no contexto português?

 L. H.: Cá dentro, o gore é um estilo que não é muito comum. As pessoas não conhecem muito, mas o que é verdade é que deve ser o mais fácil para arrancar reações do público. É a parte que mais adoramos: saber que fazemos algo com estas características e que o público vai gostar, porque é natural.

P. F.: E funciona muito bem em festival. Às vezes, nem interessa os filmes se os filmes são bons, desde que tenham certos elementos. Por exemplo, um filme de vingança pode ser uma porcaria, mas ter cenas violentas em que o público aplaude depois de cada golpe. Mas depois, também há um lado negativo nisto, que é: fecha-se muito esse círculo e cá nota-se bem isso.

L. H.: No que toca ao contexto português, os nossos filmes ficam a ganhar por serem feitos cá, precisamente porque é um género pouco explorado. As nossas histórias não são particularmente originais, mas ao serem contadas em Portugal ganham por ter esse lado português que não está associado ao género.

Qual foi o maior desafio ou dificuldade com que se depararam até agora?

 P. F.: Foi no ‘BLARGHAAARHGARG’, por causa dos espaços. No ‘Papa Wrestling’ filmámos tudo no mesmo espaço, mas no segundo filme, como queríamos dar um salto técnico, escrevemos uma história onde nos esforçámos por ter muitos locais diferentes. Foi muito mais exigente em termos de “ginástica produtiva”, além de termos recorrido a atores profissionais.

O que faz um bom filme de terror?

 L.H: Nós discutimos muito os filmes que vemos no Motelx, por exemplo, porque muitos deles baseiam-se nos mesmos elementos clichés que já viste imensas vezes. E é um género que está um bocado esgotado. É difícil fazer um bom filme de terror, mas isso passa por saberes quais são os lugares comuns e, de alguma forma, evitá-los, tentando arranjar um mecanismo minimamente diferente para proporcionar novas sensações aos espetadores.

P. F.: Ainda estamos à espera do filme perfeito.

 

Texto de Ágata Carvalho de Pinho

Fotografia de Fabrice Pinto

Grooming de Alex M

 

 

Francisco Vaz Fernandes
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