Souto Moura x Pritzker 2011

A pro­pó­sito do pré­mio Pritzker 2011 atri­buído a Eduardo Souto de Moura (Porto, 1952) rees­cre­ve­mos uma entre­vista con­ce­dida a Anatxu Zabalbeascoa para o suple­mento Babelia do El Pais, edi­ção de 30 de junho de 2007, sob o título “La buena arqui­tec­tura lleva implí­cito el ser sostenible”.

Eduardo Souto Moura fuma des­bra­ga­da­mente e fala tanto com humor quanto com lógica. Mostra-​​se mais ‘incré­dulo’ que ‘entu­si­as­mado’. Mas é o entu­si­asmo o que o faz acei­tar os pro­je­tos para novas resi­dên­cias uni­fa­mi­li­a­res, ainda que elas não lhe paguem as con­tas. Ele explica que, uma vez desa­pa­re­ci­das a ‘coe­rên­cia esti­lís­tica’ e a ‘rei­vin­di­ca­ção do ver­na­cu­lar’, vive­mos uma época em que se pode exi­gir pouco sen­tido à Arquitetura, além do óbvio ‘bom gosto’. E se declara, defi­ni­ti­va­mente, con­tra as ‘pre­se­pa­das’ [el tune­ado] que ador­nam tan­tos edi­fí­cios atuais.

Anatxu Zabalbeascoa: Em que favo­rece e em que pre­ju­dica a Arquitetura, o atraso tec­no­ló­gico de Portugal ?

Eduardo Souto de Moura: O que pre­ju­dica é o pró­prio termo ‘atraso’: estar atra­sado nunca é uma boa apre­sen­ta­ção. A van­ta­gem é que, ao se atra­sar, pode-​​se ten­tar evi­tar os erros que outros come­te­ram. Há alguns dias atrás, vi as foto­gra­fias aéreas de Málaga publi­ca­das por El País. Impressionavam ! Pois há pouco tempo, me pedi­ram que pro­je­tasse ali uma torre. E pode-​​se pen­sar que um arranha-​​céu é mais ‘espe­cu­la­tivo’ do que uma casa. No entanto, quando vi as fotos pen­sei: “pelo menos um arranha-​​céu deixa o solo livre !”

Zabalbeascoa: Mas a arqui­te­tura low­tech tam­bém não tem um lado bom e outro ruim ?

Moura: Antes, havia uma mão-​​de-​​obra qua­li­fi­cada em Portugal. E isso per­mi­tia uma Arquitetura arte­sa­nal, conec­tada com a tra­di­ção, que Távora e Siza Vieira desen­vol­ve­ram muito. Agora, os bons arte­sãos foram embora p’ra Suíça, onde são remu­ne­ra­dos como artis­tas. No entanto, a pré-​​fabricação con­ti­nua sendo mais cara em Portugal que a cons­tru­ção tra­di­ci­o­nal. Isto faz com que, diante de um novo pro­jeto, nos colo­que­mos como ‘pos­sí­vel’ o uso de qual­quer mate­rial. Assim, em Portugal, hoje, não existe um mate­rial ‘lógico’ nem ‘perfeito’.

Zabalbeascoa: E qual é o resultado ?

Moura: Agora mesmo, come­cei a cons­truir um ‘cen­tro cul­tu­ral’ dedi­cado à obra do poeta, Miguel Torga, pró­ximo ao Douro. Queria tra­ba­lhar com a pedra local, a ardó­sia [pizarra], mas ela era cara. Considerei, então, uti­li­zar uma lajota [pre­fa­bri­cado] negra – como a ardó­sia –, con­creto negro ou, até, uma cerâ­mica cinza pra­te­ada. Mas, no final, o que nos faz esco­lher entre todas as opções pos­sí­veis é o preço. A tra­di­ção, que con­si­de­rava ‘lógico’ tra­ba­lhar com os mate­ri­ais locais, desa­pa­re­ceu. Hoje, a pedra local pode cus­tar o dobro de um mate­rial simi­lar, impor­tado da China. E a ‘atmos­fera’ local pode-​​se con­se­guir, do mesmo modo, com mate­ri­ais simi­la­res que não sejam autóc­to­nes. Assim, a ques­tão dos ‘mate­ri­ais locais’ foi desmistificada.

Zabalbeascoa: Quer dizer então que os mate­ri­ais que ‘falam a lín­gua local’ são uma fraude ?

Moura: Não há nada mais dis­pen­di­oso que a ‘eco­lo­gia’. Somente os suí­ços podem ser ‘eco­ló­gi­cos’. Qualquer um que ali cons­trua um edi­fí­cio é obri­gado a ins­ta­lar um sis­tema de tra­ta­mento e reci­cla­gem das águas ser­vi­das de banho. Mas, pre­pa­rar um edi­fí­cio para acu­mu­lar as águas ser­vi­das, bombeá-​​las, tratá-​​las e recicla-​​las, é muito pouco sus­ten­tá­vel, pois con­some uma quan­ti­dade de ener­gia bru­tal. Não faz sen­tido ! Este tipo de pre­o­cu­pa­ção só se pode ter na Suíça.

Zabalbeascoa: Quer dizer, então, que o Sr. acha que a ‘sus­ten­ta­bi­li­dade’ é uma ques­tão de gente rica ?

Moura: Não, é um pro­blema dos maus arqui­te­tos. Estes se pre­o­cu­pam sem­pre com temas secun­dá­rios. Dizem coi­sas do tipo: “a Arquitetura é Sociologia, Linguagem, Semântica, Semiótica…”. Inventaram a ‘arqui­te­tura inte­li­gente’ – como se o Partenón fosse estú­pido –, e agora, a última moda é a ‘arqui­te­tura sus­ten­tá­vel’. Tudo isso são vari­an­tes [com­ple­jos] da má Arquitetura. A Arquitetura não tem que ser ‘sus­ten­tá­vel’. A Arquitetura, para ser boa, já o é, impli­ci­ta­mente, sus­ten­tá­vel. Nunca haverá uma boa arqui­te­tura… que seja estú­pida ! Um edi­fí­cio em cujo inte­rior as pes­soas mor­ram de calor, por mais ele­gante que seja, será sem­pre um fra­casso. A pre­o­cu­pa­ção com a ‘sus­ten­ta­bi­li­dade’ denota, ape­nas, medi­o­cri­dade. Não se pode elo­giar um edi­fí­cio por ser ‘sus­ten­tá­vel’. Seria como elogia-​​lo por ficar de pé !

Zabalbeascoa: O Sr tam­bém des­mis­ti­fica a ‘arqui­te­tura vernácula’ ?

Moura: É como com­prar um sué­ter de casi­mira [cache­mir]. Não sou con­tra, até gosto. Como peça iso­lada, tudo bem. Mas não é uma ope­ra­ção cor­ri­queira. O mesmo sucede com a ‘arqui­te­tura ver­ná­cula’. Hoje, uma casa de pedra é um luxo. E fazer um pas­ti­che, reves­tindo as pare­des de tijolo com pedra, soa pre­ten­si­oso. ‘Simular’ as coi­sas não é vernáculo.


Zabalbeascoa: Apesar de terem cons­truído fora de Portugal, é difí­cil, para nós, ver o Sr e Siza Vieira longe de seu ambi­ente natu­ral. Como se sente quando tra­ba­lha fora de Portugal ?

Moura: Siza nunca ‘saiu’ de Portugal. Viajou muito, mas nunca dei­xou de ser um ‘por­tu­guês em via­jem’. Seus pro­je­tos são ‘por­tu­gue­ses’. Ele é como os astro­nau­tas, que via­jam pelo espaço e se pre­pa­ram durante anos para fazê-​​lo. Mas no final, o que satis­faz os astro­nau­tas é vol­tar p’ra casa. Siza viaja muito, mas nunca dei­xou de ser por­tu­guês. E comigo é pare­cido. Isto quer dizer que, para nós, estar fora de casa é uma excepcionalidade.

Zabalbeascoa: O Sr. come­çou sua car­reira sendo muito mie­si­ano, car­te­si­ano. Mas, em suas últi­mas resi­dên­cias, parece haver se sol­tado. O que o fez mudar ?

Moura: Bem, houve duas mudan­ças. Uma delas é a nova escala. Eu tinha um traço [cali­gra­fía] mie­si­ano que ser­via muito bem para as casas de um só pavi­mento. Mas quando pro­je­ta­mos numa escala urbana, esse traço já não serve mais. Temos que nos adap­tar aos novos ambi­en­tes e pes­qui­sar outras tipo­lo­gias. Isto me acon­te­ceu quando pro­je­tei o metrô da cidade do Porto, e quando tra­ba­lhei no Estádio de Braga. É impos­sí­vel abor­dar esses pro­je­tos com uma arqui­te­tura reti­lí­nea. Essas mudan­ças de escala me abri­ram a mente. Fizeram-​​me pen­sar de outra maneira.

Zabalbeascoa: Então, a escala trans­forma os arquitetos ?

Moura: Sim; e a idade tam­bém. Quando eu era mais jovem estava pre­o­cu­pado com o ‘estilo’, com a ‘ele­gân­cia’. Hoje, valo­rizo mais a ‘natu­ra­li­dade’. Para pode­rem resis­tir ao tempo, para que os edi­fí­cios per­ma­ne­çam, é impor­tante que as coi­sas sejam viven­ci­a­das com natu­ra­li­dade. Um pouco como acon­tece com os ani­mais, que quando nadam muito per­dem as patas, se trans­for­mando em nada­dei­ras. A Natureza res­ponde sem­pre da maneira mais ‘natu­ral’, com lógica. E acre­dito que, antes, eu fazia uma arqui­te­tura muito pre­o­cu­pada em ser ‘coe­rente’ mas que, no entanto, res­pon­dia a um campo muito limi­tado da rea­li­dade. Hoje, fui per­dendo o medo de fazer coi­sas ‘feias’. Não se trata de que­rer fazer algo ‘feio’, por prin­cí­pio. É que para fazer coi­sas ‘boni­tas’ temos que per­der o medo de fazê-​​las ‘feias’.

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