LC_3433_Malhas Portuguesas

“Malhas Portuguesas” de Rosa Pomar

A história da malha ponto-a-ponto

Rosa Pomar. Trinta e sete anos e autora do blogue A Ervilha Cor de Rosa. Não sabe dizer que profissão tem, mas no seu blogue diz que uma «mãe blogger que faz bonecos e outras coisas de pano e os vende através da internet  (…) é o mais acertado». Para além dos trabalhos que expõe no blog, tem ainda uma loja chamada Retrosaria e produz a lã que utiliza e vende. Em Março lançou o primeiro livro, em português, sobre a história do têxtil em Portugal, desde a Idade Média à actualidade, intitulado Malhas Portuguesas.

Faz malha desde os sete anos e desde então nunca parou. «Sempre vivi rodeada de mulheres que conciliavam personalidades fortes e carreiras profissionais com o gosto pelo bordado, costura e outras técnicas. Tive a sorte de crescer com a certeza de que não havia nenhuma incompatibilidade entre ser-se uma mulher intelectual e civicamente activa e gostar de fazer malha, macramé ou tapetes de arraiolos». Como a mãe não faz malha, foi aperfeiçoando a sua técnica ao longo da sua vida e tem percorrido o país à procura de quem a ensine e lhe mostre como se fazem as coisas, cruzando-se com diferentes pessoas ligadas a este meio, como pastores, associações de criadores e fiandeiras de diferentes regiões.

Durante essas viagens e o trabalho de campo que lhes era inerente, Rosa começou-se a questionar para onde ia a lã das ovelhas portuguesas. «Apesar de a maioria das pessoas não ter a noção disso, as marcas portuguesas de fios para tricot não trabalham com matéria-prima de origem portuguesa. Ora, se havia ovelhas um pouco por todo o lado, para onde ia essa lã se não era para os novelos que as lojas vendem?». E, assim, foi descobrindo os pequenos oásis portugueses, onde ainda se produzia lã artesanalmente. «Quis trazer para Lisboa essas lãs, umas inteiramente processadas à mão desde a tosquia ao novelo (é o caso dos fios Bucos e Mirandesa) e outras fiadas industrialmente, mas com matéria-prima de “origem demarcada” (como o fio Beiroa)». Desde então, tem continuado o seu estudo acerca dos lanifícios e lutado incansavelmente pela sua valorização e preservação e, em 2009, começou a dar os seus primeiros workshops, em Lisboa, onde ensina pessoas a fazer malha e onde aproveita para divulgar o que já aprendeu. «Interessa-me sobretudo tentar que se valorizem localmente os saberes de cada região. É a única forma de não desaparecerem. Quanto mais divulgadas forem as peças como os barretes de vilão da Madeira ou as barretas de São Miguel, ou as meias da Serra de Ossa mais provável é que haja novas pessoas nesses sítios a quererem aprender a fazê-las».

Manter vivos os saberes de cada região e preservá-los foi um dos motivos que levou Rosa a escrever Malhas Portuguesas; o outro foi querer lê-lo. Considera que há ainda muito pouco escrito acerca das malhas tradicionais portuguesas, apesar de haver pano para mangas para se falar! Até agora, o feedback tem sido bastante positivo: «Percebe-se que não era só eu que queria ler mais sobre o assunto. Tenho tido muitas encomendas de outros países, feitas por pessoas que mesmo não lendo português querem saber como são as nossas malhas tradicionais e como é este método exótico de fazer malha com o fio ao pescoço, o mais comum em Portugal mas desconhecido em grande parte do mundo». O blog foi uma boa plataforma de pesquisa para o livro, uma vez que lhe permitiu estabelecer diferentes contactos e ter acesso a novas pistas de investigação, através dos comentários dos seus leitores.

Para além das malhas, Rosa Pomar tem-se dedicado a outros trabalhos, como os bonecos de pano, que começou a criar em 2004, aquando do nascimento da filha mais velha, e os slings, ou portadores de bebés, aos quais se rendeu quando nasceu a sua filha mais nova. Na Retrosaria online pode ainda encontrar outros artigos, como mantas, sacos, fios, acessórios de tricô e os mais diferentes livros sobre a matéria.

Texto de Vanessa Raminhos
Fotografias cedidas por Rosa Pomar

Francisco Vaz Fernandes
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