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Leonor Morais

Entrevista a Leonor Morais.

PARQ: Este ano foi um ano muito rico em street art, está presente nas principais artérias lisboetas. A que se deve este súbito interesse por esta forma de arte?

LM: Não sei responder ao certo mas penso que seja um reflexo do que está a acontecer há anos noutros países onde a street art também chegou em força ao ponto de entidades públicas e de algumas marcas (que funcionam como mecenas dos nossos dias) apoiarem e possibilitarem os meios necessários para serem realizadas peças de grande dimensão.

PARQ: Estudaste nas melhores escolas nacionais onde a street art nunca é mencionada, daí a pergunta: como nasceu o teu interesse por esta expressão?

LM: A expressão já existia, só não tinha este nome. As gravuras rupestres, as pinturas murais, os menires, todas as esculturas no centro das grandes rotundas, os baixo-relevos nas igrejas e a arte pública em geral… A arte sempre esteve na rua e é uma forma de expressão fundamental ao ser humano. A street art de que se fala hoje não era quase mencionada, mas já nos anos 60 a pop art pretendia tornar a arte mais acessível e popular. Andy Warhol era a figura principal e Basquiat o artista mais próximo da rua. O meu interesse por esta expressão surgiu inicialmente através de uma viagem a Barcelona, onde encontrei pinturas na rua um pouco por todo o lado. Depois foi outra viagem, desta vez a Manchester, onde pintei com o Mar, o Ram, o Vhils, o Klit, o Dheo, a Sphiza e o Paulo Arraiano e senti um prazer enorme em partilhar a mesma parede numa conversa sem palavras.

PARQ: Em que momento passaste para a grande dimensão e para o espaço público? O que te trouxeram de novo para o teu processo criativo?

LM: A nível de processo criativo foi uma grande mudança. Como já disse, foi em Manchester, mais particularmente num festival de graffiti chamado Eurocultured, e na montra do Urban Outfitters, também em Manchester. Apresentaram-se vários desafios: a partilha do mesmo espaço com outras pessoas, a conversa sem palavras, sentir as pessoas a observarem e a entrarem dentro do processo criativo… A ampliação de escala possibilitou a implicação do corpo todo no processo de desenho, o que deu origem a uma maior abertura e ligação com o interior do mesmo.

PARQ: No teu site referes que o shiatsu foi um dos grandes impulsionadores do teu trabalho porque permite estabelecer uma relação entre o teu interior e o processo de criação. Queres explicar um pouco melhor?

LM: O shiatsu permitiu-me conhecer melhor o meu corpo, os seus limites, desafiá-lo e encontrar zonas de liberdade. Permitiu-me sentir a forma como processa conteúdos, a ligação entre o dentro e o fora, as portas de entrada e as portas de saída. Senti no meu corpo respostas a perguntas que há muito estavam presentes na minha cabeça. O shiatsu deu sentido a palavras que estavam a fermentar sem encontrarem saída. Ajuda-me a abrir, a viver e a fechar o processo de um desenho que, enquanto se desenrola, também está a desenrolar coisas dentro de mim.

PARQ: Quando vais para um campo de intervenção, trazes um desenho pré-concebido ou ele acaba por surgir ao longo do processo criativo?

LM: O desenho aparece ao longo do processo, gosto de acreditar que ele já lá está e que apenas lhe estou a dar vida.

PARQ: No caso do projecto que desenvolveste para o Saldanha dentro da Pampero Public Art 2010, como se deu o desenvolvimento da ideia?

LM: Neste caso – como em todos os outros trabalhos – apesar de me ter sido dada uma escala com a qual nunca me tinha deparado, não fiz projecto porque não queria ir contra o meu processo de trabalho. Se o fizesse, perdia para mim todo o interesse, deixava de ter liberdade e abertura para ouvir o espaço e o momento.

PARQ: Quais os principais desafios que tiveste que vencer neste projecto?

LM: Os desafios foram muitos, a escala era bem para lá da dimensão e do alcance do meu corpo, teria que me transformar num gigante. Para conseguir fazer o trabalho tive que aprender a conduzir uma máquina, que se transformou na extensão do meu corpo, e tive que lidar com um obstáculo: um candeeiro. Inicialmente foi o pânico, o coração a disparar, o estômago a rejeitar o constante abanar, o enjoar… Mas lá me habituei à máquina, com a ajuda incrível de todos e todas. Usei canas para aumentar os meus braços, um extensor para o rolo e música para me acompanhar, quando estava sozinha. Muitas vezes, o Bruno – a quem agradeço do coração – acompanhou-me em pinturas e alturas… Foi um prazer e uma adrenalina incríveis abraçar este desafio e sentir o suporte de todos: do Sandro Resende (que me convidou e acreditou que era possível), do Zé do P28, da CML na presença da Inês, do Paulo Arraiano (o outro artista que estava a pintar ao dobrar da esquina), do Duarte, do pescador da Trafaria que ofereceu uma rede da sua arte, e de todos os desconhecidos e conhecidos que lá de baixo desejavam boa sorte e davam suporte. Bem Hajam!

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