Murta

Murta na Street Art

Murta é uma planta, cujo nome científico é Teresa Costa Gomes. Também é uma jovem ilustradora de 24 anos, formada em Artés Plásticas e Design Gráfico. Com um fraquinho pela street art, Murta é um talento em ascensão pelas paredes desse Portugal a fora. O seu corpo é um jardim botânico e as suas mãos dão vida a formas abstractas, enquanto brincam com texturas e cores, descontruindo a fauna e a flora. A interpretação fica a cargo de quem passa, de quem vê o seu jovem legado pintado pelas paredes, numa simbiose perfeita entre elementos naturais e figurativos. O seu trabalho está em exposição no WOZEN studio, em Lisboa, em Março.

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De que forma foste introduzida na street art?
A primeira vez que pintei na rua foi nas Caldas da Rainha, com a intenção de “inaugurar” no evento Caldas Late Night, no qual estava a participiar pela segunda vez. Não me introduzi propriamente na street art, foi simplesmente um desejo de fazer algo que na altura não era muito comum na cidade e saciar uma curiosidade minha – pintar uma parede, usar rolos e trinchas velhas, passar para outra escala.

De que forma fundiste formas ciêntificas e botânicas – coisas aparentemente tão exactas – com o abstracto na tua arte?
Foi algo que aconteceu naturalmente e foi fruto de um percurso que passou por muitas outras fases. O facto de estar a trabalhar a natureza tem muito que ver com a minha infância. A minha avó paterna é botânica e investigadora e cresci a observar e analisar os frutos, as folhas, os caules, as curiosidades e estranhezas da flora. Contudo, o facto de ter trabalhado estes temas foi um acaso do percurso, foi uma consequência de escolhas que fui fazendo ao longo do meu projecto como MURTA. Tudo começou quando me comecei a importar com a forma acima de tudo – acima do contexto, da conotação e do conceito inerente a cada coisa. O facto de usar as “formas” e “deformações” para trabalhar as relações, não só entre si, mas também entre as cores, levou -me a invadir o universo da natureza para me inspirar para estas “criações”. Encontrei nas minhas memórias muitos “objectos” ocos – muitas formas sem nome, sem propósito, sem cheiro ou sabor. E senti a liberdade de as usar da maneira que me interessasse mais.

O que nos podes dizer acerca do teu último trabalho, “Na paisagem”?
“Na paisagem” é o nome da minha última série. Pintei sobreposições de memórias que, no seu todo, formam uma quase paisagem. Podia dizer, por outro lado, que é uma memória de paisagem formada por “objectos naturais”. Trata-se da união de duas versões do meu trabalho e das duas dimensões da minha memória: o macro e micro. Joga com o tamanho relativo das coisas e com a proximidade e intimidade com que as observo, trocando, sem ordem, umas texturas por outras.

E o último trabalho que pintei numa parede foi em Loures e trata-se de uma composição destes elementos, sendo que um deles é bastante maior que os outros e é onde todos eles se depositam. Este “ser orgânico” está a quase que a saltar, criando profundidade, dando realismo e aumentando a sua possibilidade ilusória de “existir.”

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Qual é a chave para a longevidade na indústria do street art?
Não tenho muito a acrescentar aqui, pois sou da opinião de que qualquer coisa saturada deixa de possibilitar interesse infinito. Acho que “ninguém” nem nenhuma entidade tem o direito ou dever de controlar essa mesma saturação, ou a intensidade com que a “actividade” é praticada. Contudo, tenho a sensação que esta “paixão” que por aí anda é superficial e efémera. Penso que as crianças, que hoje em dia crescem a observar as ruas, seja a passear ou no trânsito, pela janela do carro, estão realmente a aproveitar o que a street art tem de melhor. Não procuram a assinatura para dizerem se gostam ou não, se tem ou não valor.

És hoje o que sonhavas ser em criança?
Sim! Ainda há pouco tempo vi alguns vídeos de quando tinha 7 anos, em que respondia à típica pergunta “o que queres ser quando fores grande?” com: astraunauta, médica de animais ou pintora. E cá estou eu sempre na lua, a tratar a natureza na pintura.

Texto de Joana Teixeira

_my body is a botanic Garden_

 

Francisco Vaz Fernandes
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