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Elegia de uma separação

Nunca uma separação espelhou tão bem a sensação de abandono, descrença e solidão de forma luminosa. Dirty Projectors  é a busca de uma identidade própria que, a partir de uma introspeção pessoal, tenta resgatar o coração destroçado de Dave Longstreth, após a separação da sua companheira de banda e amada, Amber Coffman. Mais do que expurgar o seu desalento, colora-o ao invés de cair na tentação da negra autocomiseração.

O novo álbum da banda é transformado na própria pessoa de Dave Longstreth que resgata o seu passado musical desde o primeiro instante e percorre-o lapidarmente até à sua separação. Não será um acaso ter escolhido para título do disco o próprio nome da banda. Contudo, o que o torna extraordinariamente atrativo é a sua capacidade de estender brilhantemente ao máximo as fronteiras do seu reportório musical, que não sendo um conceito exclusivo – recorde-se 22, A Million, o último álbum de Bon Iver – não é assim tão frequentemente bem conseguido.

Repensar uma identidade individual após uma separação não é processo fácil. A sensação de desamparo aliada à forte presença e ideia que se tinha do outro, faz questionar toda a conceção da relação e de si próprio. Houve claramente uma necessidade do artista redimensionar a pessoa que amou e os seus sentimentos, separando a projeção que fez da realidade.

Mas ao invés de uma catarse claustrofóbica e obscura, Dave Longstreth expressa a sua dor com uma extraordinária candura e luminosidade. O álbum arranca com “Keep Your Name”, já editado como single, que desde logo denuncia o tom e o mote do disco. E pressente-se que as restantes nove canções fazem todo o sentido como elementos integrais de um único organismo.

Os dois singles que se seguiram, “Little Bubble” e “Up in Hudson”, confirmam a premissa de que Dirty Projectors é uma ode à separação. A tríade de singles revela, por um lado uma vocalização familiar extraordinariamente honesta, e por outro espelha uma construção lírica da realidade explícita e da sua trajetória, quer na perspetiva enquanto elemento da banda, quer na perspetiva pessoal.

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Neste contexto o tema “Up in Hudson” remete inclusivamente para a cidade onde parte do álbum foi escrito, e cita explicitamente na letra da canção o processo criativo partilhado com a companheira e os votos de amor eterno cristalizados na canção de “Stillness Is theMove”, que integra o alinhamento do álbum de 2010 BittaOrca.

Na mesma ordem de ideias, “Keep your name” recorre ao reportório da banda, ao arquitetar um sample da vocalização de uma parte da letra, mais concretamente a frase We don’t see eye to eye’s, a partir da canção “Impregnable Question”, alinhada no disco Swing Lo’s.

A riqueza da paleta musical é também desde logo denunciada na abertura do disco, experimentalismo rock com piscadelas de olho que vão desde o já recorrente R&B ao Hip-Hop. O tema “Death Spiral” evoca o registo sexy das músicas a que Justin Timberlake ou Timbaland nos habituaram. Por sua vez, a canção “Cool Your Heart”, que conta com as colaborações de Solange e D∆WN, eleva ainda mais o género ao juntar-lhe ritmos caribenhos.

I see You”, que encerra o disco, evoca a canção em formato de uma balada à moda de Serge Gainsbourg, enriquecida com órgãos distorcidos e elementos R&B estraçalhados, num cruzamento absurdamente caótico mas delicioso, numa métrica aparentemente desordenada mas que no final nos faz todo o sentido. Pelo menos neste contexto, sobretudo porque se sabe por experiência, que a realidade é tudo menos linear.

A complexa narrativa musical de Dirty Projectors atravessa todo o disco ditando a sua estrutura, onde as flutuações métricas são apresentadas sempre de forma inesperada. O tema “Ascent Through Clouds,” é um reflexo perfeito desse espírito, porque parte de uma linha de cordas de viola clássica, na qual o ritmo crescente provoca várias inflexões e derivações, culminando num turbilhão de elementos eletrónicos aparentemente contraditórios. Assim como “Work Together”, que parte de uma base de piano, para se atirar depois para inesperados territórios com texturas de contornos arabescos.

Contrariamente ao que seria de esperar, Dave Longstreth não recorre a uma melancolia cinzenta e deprimida, mas decide antes conceber um disco que retrata uma separação de forma antagónica, processando uma reflexão profunda e comovente da sua dor, num tom o mais colorido possível. Ao expor-se de forma tão honesta e sensível, mas com uma incrível plasticidade, faz com que Dirty Projectors se torne num disco incontornável, sobretudo porque a sua tristeza ultrapassa os limites da soturnidade e lança-se na estratosfera da luminosidade eletrónica.

Texto De Carlos Alberto Oliveira

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Francisco Vaz Fernandes
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