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AMA-SAN, Cláudia Varejão

 

Ama-San, documentário da portuguesa Cláudia Varejão, retrata a milenar tradição japonesa da pesca em apneia, praticada apenas por mulheres. Entre as imagens dos preparativos, – o vestir o fato de borracha, o enrolar o pano tradicional que lhes protege a cabeça e o colocar a máscara – do barco, do mergulho, e já no mar à procura de marisco, surgem reflexos do seu dia-a-dia. Vemos as Ama nas suas casas, com as suas famílias, a comer, a rezar ou em jantares comemorativos. Entramos assim no seu quotidiano, ficando a conhecer estas mulheres fortes e independentes, os seus momentos de vitória, mas também os seus receios.

Cláudia Varejão não facilita, no entanto, a compreensão de todos estes rituais. Num explorar constante da fronteira entre documentário e ficção, vão-nos sendo transmitidos na sucessão das imagens; os intervenientes nunca olham a câmara e não há depoimentos ou explicações, fazendo-nos sentir uma espécie de voyeurs espiando a vida destas mulheres. Sem a distração que poderia advir destes depoimentos, os planos belissimamente captados, enchem-nos os olhos, exigindo-nos o tempo de serem saboreados, de serem digeridos.

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O tempo é assim um elemento fundamental da narrativa deste filme. Tudo se demora, remetendo-nos para a tranquilidade do fundo do mar, para o ritmo desacelerado da pequena aldeia onde vivem as Ama e para a sua candura, a forma pacífica como aceitam uma profissão que pouco tem de fácil – não as víssemos também em frente a uma lareira, tentando devolver o calor ao corpo, partilhando as idas ao médico e os problemas de surdez.

Ama-San torna-se assim num filme apaziguante, que serve o propósito de nos transportar para o outro lado do mundo, fazendo-nos mergulhar numa torrente de cores, de cheiros e sensações. Desengane-se, contudo aquele que procura satisfazer com este documentário a curiosidade sobre os processos inerentes a esta profissão. Tentando manter a mística da tradição, nesse arrebatamento que sentiu pelas Ama, Cláudia Varejão não revela os seus mistérios, e levanta-nos mais questões do que aquelas que responde.

Texto de Rebeca Bonjour

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Francisco Vaz Fernandes
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