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Novos Designers: Tiago Sá da Costa

Tiago Sá da Costa é um jovem de 34 anos formado em Design de Equipamento. Designer de profissão e artesão amigo do ambiente, abraçou a cortiça como matéria-prima predilecta e desenvolveu a sua própria técnica orgânica de trabalho. Inspirando-se nas formas da natureza, qual Gaudí contemporâneo, cria peças sustentáveis jogando com linhas naturalistas. É um talento do design funcional ecológico e pretende elevar a cortiça a património da textura.

portrait_TiagoSC(credits-Maria_Kallas)

De que forma foste introduzido no design?
De certa forma desde cedo todos estamos, de uma maneira ou de outra, rodeados e expostos ao design. A curiosidade de como as coisas são feitas e a atenção ao detalhe foram lentamente introduzindo-me ao design ao longo da vida. Mas, só nas aulas de Educação Visual e Tecnológica é que me apercebi que o design era todo ele uma disciplina por si próprio. Em última instância, foi quando fiz Erasmus em Maastricht na Holanda, e a faculdade organizou uma visita de estudo à semana de design em Milão – aí sim fui verdadeiramente introduzido ao mundo do design contemporâneo e tive contacto com as diferentes vertentes da disciplina. Abriu-me os horizontes para além daquilo que aprendera até então em Belas Artes.

De que forma fundiste o design funcional com a vertente ecológica?
Tendo atenção à escolha dos materiais e das técnicas utilizadas, não só no producto em si mas também na embalagem do mesmo. O facto de trabalhar com cortiça ajudou a essa fusão, sendo este um material extremamente ecológico. Depois, foi ter a preocupação de não utilizar materiais adjacentes que fossem poluentes ou sintéticos, onde não são imprescindíveis. Por exemplo: uso goma laca (Shelac) para revestir a cortiça em vez de um qualquer verniz ou resina sintética; para as embalagens uso fita cola de papel em vez de plástica e pepitas de enchimento bio degradaveis à base de milho, em vez das tradicionais de poliurteno ou poliestireno.

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Porque escolheste a cortiça como matéria prima de eleição?
A cortiça é um dos materiais mais sustentáveis e é um material endémico à região mediterrânea, com grande abundância no território português. O meu primeiro contacto com a cortiça deu-se na faculdade, onde um enunciado requeria que usássemos aglomerado de cortiça para um exercício. Desenvolvi então a minha própria técnica de trabalhar o aglomerado de cortiça. Com o curso acabado vi o potencial dessa técnica aliado à sustentabilidade da cortiça em si, e resolvi dar seguimento ao trabalho. Isto antes do grande “boom” de objectos feitos em cortiça que hoje em dia testemunhamos em Portugal.

Mais tarde, em retrospectiva, apercebi-me também que tendo passado partes da minha infância em Portalegre no Alentejo, de onde eram os meus avós, cresci rodeado de sobreiros e de artesanato em cortiça. Isso talvez me tenha também influenciado a um nível subconsciente.

Qual é a chave para a longevidade na indústria do design?
A longevidade do design deve estar na qualidade versus quantidade, e na preocupação de uma produção sustentável. Vivemos numa sociedade que produz toneladas de lixo por dia e numa economia de capitalismo em que as coisas são feitas para não durar mais de 2-3 anos. O design deve contrariar esta tendência e apostar na qualidade, durabilidade e sustentabilidade das técnicas e materiais utilizados, tal como tentar reverter alguns comportamentos de consumo errados e não sustentáveis. E no seguimento desta ideia, gostaria de influenciar uma consciência e preocupação ecológica na forma como se produz e consome design.

tiago sá da Costa

 

És hoje o que sonhavas ser em criança?
Não, quando era criança sonhava ser ilustrador de banda desenhada. Sempre fui grande fã do género, em mais novo era um ávido colecionador, em particular dos “comics” americanos. Sonhava um dia poder escrever e ilustrar a minha própria publicação de BD. Mas, isso era noutros tempos, pois desde a faculdade que aprecio mais trabalhar em 3 dimensões. Talvez ainda não seja hoje exactamente aquilo que quero ser, mas já estive bastante mais longe. No primeiro ano do curso um professor afirmou que apenas 1/5 dos alunos inscritos acabaria a trabalhar em design. E desde então que disse a mim mesmo que faria parte desse “quinto” – lutei para isso e ainda hoje trabalho em design.

Entrevista de Joana Teixeira

 

 

Francisco Vaz Fernandes
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