Tatuagens, Instituto de Medicina Legal, para MUDE, Lisboa 24.2.2017 © Luisa Ferreira

Cicratizes do tempo

Dedicada à arte da tatuagem, a exposição “o mais profundo é a pele”, organizada por Catarina Pombo Nabais e Carlos Branco vem, no essencial, revelar um espólio documental do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses de grande interesse social e histórico.

ng8420024

Trata-se de um conjunto de registos oficiais entre 1910 e 1940 que o instituto produziu, no intuito de, estudar o comportamento de figuras que viviam em Lisboa no início do século XX, descritas como marginais e boémias. As suas tatuagens foram registadas a partir de desenhos e documentadas fotograficamente, mas o seu interesse científico ainda ditou que, dos corpos autopsiados também se fizessem retalhados de pele tatuada para serem preservados em formol. Esses registos prosseguiam o propósito estatal de estudar os indivíduos tatuados, de forma a classificá-los e encontrar, assim, os indícios de padrões comportamentais considerados à época como desviantes. São todos estes elementos, considerados de interesse científico, que são expostos recriando o universo da época.

Tatuagens, Instituto de Medicina Legal, para MUDE, Lisboa 24.2.2017 © Luisa Ferreira

Tatuagens, Instituto de Medicina Legal, para MUDE, Lisboa 24.2.2017 © Luisa Ferreira

No advento da república, o natural idealismo de uma nova sociedade gerou, tal como, em outros países, todo um labor científico que, em última análise, institucionalizava métodos de repressão. Estas relações, entre o conhecimento e o poder, foram essencialmente evidenciadas por Michel Foucault, autor francês que em livros como “Vigiar e Punir”, estudou as formas de repressão dos estados modernos. Claramente, os curadores procuraram trazer essa figura tutelar da filosofia francesa para a compreensão do contexto expositivo e durante o percurso, encontramos na cenografia, a letras grandes, algumas das citações mais conhecidas do autor. Outros pensadores franceses, da mesma época, com estudos em torno da construção do sujeito nas sociedades modernas são igualmente citados, havendo um notório interesse em compor um enquadramento teórico a um caso português, o que dá um certo tom académico a todo o projeto expositivo.

Tatuagens, Instituto de Medicina Legal, para MUDE, Lisboa 24.2.2017 © Luisa Ferreira

Tatuagens, Instituto de Medicina Legal, para MUDE, Lisboa 24.2.2017 © Luisa Ferreira

 

 

Contudo a singularidade dos objetos expostos e a identificação de uma sociedade marginalizada ultrapassam o enfoque académico do projeto. Como se pode perceber, há um conjunto de população urbana, com poucos recursos, em choque com a nova ética republicana. Sendo identificados como vadios, marinheiros e prostitutas que viam as suas tatuagens ser estigmatizadas, estes eram alvo do interesse das instituições estatais que tinham por função criar os mecanismos de os segregar socialmente, Os conflitos entre indivíduos e instituições é, assim mais que tudo, patente nesta exposição que permite restaurar a visibilidade de um conjunto de grupos que, os novos poderes instituídos, através das suas instituições, encarregavam-se de os tornar socialmente invisíveis.

Tatuagens, Instituto de Medicina Legal, para MUDE, Lisboa 24.2.2017 © Luisa Ferreira

Tatuagens, Instituto de Medicina Legal, para MUDE, Lisboa 24.2.2017 © Luisa Ferreira

Curiosamente, de todos os marginais que eram referidos, o cantor de fado parece ser o que melhor sobreviveu, impondo-se hoje no contexto social dominante. O fado era um dos motivos que aparecia

Jose_malhoa_fado

 

Palácio Pombal

Rua do Século, 65, Lisboa

das 10:00 às 18:00

Até 25 Junho

www.mude.pt

 

Tatuagens, Instituto de Medicina Legal, para MUDE, Lisboa 24.2.2017 © Luisa Ferreira

Tatuagens, Instituto de Medicina Legal, para MUDE, Lisboa 24.2.2017 © Luisa Ferreira

 

 

 

Francisco Vaz Fernandes
No Comments

Post a Comment