the black mambo

NOS ALIVE 2017: Música portuguesa para que te quero

Já não cabia mais ninguém no Passeio Marítimo de Algés. Entre os caminhos tortuosos que davam acesso aos seis palcos – tal era a dimensão das ondas de gente – passaram 165 mil visitantes vindos de todos os pontos do globo e que escolheram o NOS Alive para viver um fim-de-semana absolutamente extraordinário. É um ciclo virtuoso que alegra o verão português e que mete cobiça a quem vê de fora.

O line-up internacional desta edição tornou-se indiscutivelmente no principal atrativo da 11ª edição do festival. Contudo, as melhores e grandes surpresas aconteceram em português.

06 de junho, quinta-feira.

Eram 18h. E no palco NOS subia a banda indie-folk You Can’t Win Charlie Brown (YCWCB) para dar as boas-vindas com o seu trabalho mais recente, “Marrow”. Entre loops de eletrónica, uma guitarra bailarina e a presença assídua dos sintetizadores, YCWCB surpreenderam a audiência pela sua sensibilidade pop deliciosa. Uma atrás da outra, cada canção refletia sons e vibrações caleidoscópicas.

A Enchufada dominou o palco Coreto elevando-se numa índole energética e dançante, que se prolongou até ao final da noite. Dotorado Pro trouxe os sons do gueto de lisboa às 19h50. Tocava Alt-J na outra ponta do recinto, mas foi o miúdo de “African Scream” que nos chamou a atenção. Meio funk, meio kizomba, Dotorado Pro provou que as explosivas batidas africanas também têm sangue português.

Para encerrar a noite, Riot – pseudónimo de Rui Pité – assumiu a liderança do arraial. Numa traklist de peso composta por hip hop, afro house e drum’n’bass, acabava de criar e partilhar matéria em peso para agitar o corpo. “Num Tá Bom” (Deejay Telio), “Hotline Bling” (Drake), “Formation” (Beyoncé), “Get Ur Freak On” (Missy Elliot) ou “Man Down” (Rihanna) foram levados ao limite. Quem lá esteve, que o confirme.

14657448514_d589fda20c_c

07 de junho, sexta-feira.

A sexta-feira começou com Tiago Bettencourt no palco NOS. Foi como relembrar as memórias mais antigas. O cover de “Canção de Engate”, original de António Variações, foi o mote do concerto. A partir daí, foi cantar em uníssono os temas mais marcantes da carreira do músico. E sim, ainda há quem tropece nos versos da “A Carta”.

Entretanto, Bruno Afonso, Cláudio Fernandes e Ernesto Vitali – os incríveis Pista – alegravam o palco NOS Clubbing com os seu rock tropical e bem-disposto. Não demorou muito até o pé começar a querer saltar. Espontâneos, contagiantes e divertidos, são os adjetivos que melhor parecem descrever o concerto fresco destes miúdos.

E de volta ao Coreto, passava pouco depois das 21h para assistir ao concerto das irmãs Falcão. Golden Slumbers tocaram um folk airoso, impossível de desassociar a Simon & Garfunkel. No entanto, prova de que o clássico permanece.

tiago bettencourt

8 de junho, sábado.

Os espantosos The Black Mamba regressaram ao NOS Alive. E ainda bem porque, das três bandas portuguesas que passaram por este palco gigantesco, foram os que mais cativaram os festivaleiros. Absolutamente incansável, a energia de Tatanka aqueceu a audiência com a sua voz tão distinta e provou que o Soul é mesmo universal.

De regresso ao Coreto, 20 minutos não chega nunca para o Filho da Mãe. A recetividade do público foi imediata, não fosse o Rui um dos músicos mais auspiciosos da nova música portuguesa. Há um dedilhar que se afirma, mas que nunca se repete. Conduz com gentileza o som e deixa-nos uma vontade inteira de não parar de ouvi-lo.

O NOS ALIVE serve a música portuguesa num prato cheio. Não deixa de ser um festival para as massas, por vezes até difícil de digerir o programa diverso – e um tanto confuso – Mesmo assim, importa sublinhar que, se é bom criar espaço para a música portuguesa, muito melhor será amplia-lo em diante. Ai, música portuguesa para que te quero…

Texto Teresa Melo

the black mambo

Francisco Vaz Fernandes
No Comments

Post a Comment