Cartaz ENIM para serise

Jorge dos Reis : 20 anos a criar letras

Neste verão Almada foi sacudida pelo Festival de Teatro de Joaquim Benite, um evento que celebrava 20 anos de atividade. Como é habitual, um designer é convidado para criar a imagem do festival. Este ano o convidado foi o designer JORGE DOS REIS, que, por coincidência, regista também 20 anos de atividade profissional como designer gráfico e especialmente no domínio tipográfico. A acompanhar o teatro é feita uma exposição do trabalho gráfico realizado para o festival, na Casa da Cerca.

JORGE DOS REIS expõe por isso, no espaço da Casa do Desenho, 20 letras tipográficas; 20 cartazes de cultura; 20 livros e publicações, 20 catálogos de obra; 20 identidades gráficas; 20 desenhos de processo. A exposição revela um longo e sinuoso trabalho de desbaste tipográfico que põe a nú num esforço gestáltico e retiniano a busca de novos sentidos, interpretações, ou configurações da letra. Este acto criativo, que pressupõe uma profusão de formas e linhas, transporta o visitante da exposição, aos problemas do conceito de designer, especialmente, de autor.

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O conceito de “de autor”, extensamente abordado por Michael Rock, no ensaio The designer as Author”, em 1996, reporta o designer para um domínio mais amplo e criativo de intervenção, além do mero profissional que responde somente aos problemas apresentados pelo cliente. O objetivo do “designer de autor” consiste em ter um papel mais preponderante no conteúdo do trabalho, isto é, em ter mais domí­nio da sua prática, além do que é pedido no briefing.

Autores há que, ao definirem a designação de projetista, a limitam ao mero executor de tarefas exigidas pelo cliente, segundo Bicker. Não deixa de ser curioso, por isso, a preferência que JORGE DOS REIS tem manifestado por esta designação, e o desejo que tem revelado para que lhe chamem, somente, projectista “ dado que esta designação salvaguarda, assim, qualquer pretensão por parte dos designers de se associarem a um brilhantismo individual. Por outro lado o termo design de autor, parece situar-se num parâmetro indefinido, mas igualmente pertinente, entre a arte e o design, e inscreve-se, por isso, num domí­nio mais experimentalista e desbravador de caminhos possí­veis.

Esses caminhos podem ser observados no trabalho de JORGE DOS REIS ao longo destes 20 anos e em torno do trabalho tipográfico que se estende para lá da mera tentativa de dar resposta a um problema concreto de comunicação, mas muito mais do que isso, no sentido de uma metalinguagem em que o designer se posiciona na busca e reflexão da própria linguagem e na investigação dos códigos que lhe são próprios.

JORGE DOS REIS, ao longo de duas décadas, tem traçado este diálogo entre o exterior e o interior da escrita, entre a forma da letra e o seu conteúdo, que, longe de ser pací­fico, revela uma constante “mutilação, reconversão, descontextualização e recontextualização” dos espaços da escrita; ora colocando o leitor/criador na ambivalência da afruição da letra, ora na sua leitura, o designer vai criando tensões entre estes dois mundos indissociáveis.

Como nos diz o próprio designer, no catálogo “Terra Plana” editado este Verão, aquando da exposição na Casa da Cerca em Almada: “vou gerando, por isso, naturalmente, conflitos, dualidades, mestiçagens, perplexidades, compromissos, contradições, resultando na transformação das formas, imaginando para além do possível, onde a poesia e a estética são um instrumento de trabalho, desenhando uma nova história”.

 

Texto de Carla Carbone

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segundo cartaz

Francisco Vaz Fernandes
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