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DJ Lycox, Um príncipe da batida

O álbum de estreia de DJ Lycox na Príncipe Discos é um dos momentos altos da produção nacional de 2017.

Por esta altura é mais do que evidente que o catálogo da Prí­ncipe – que ultrapassou já as duas dezenas de entradas – abriga algumas das mais interessantes e originais propostas da modernidade eletrónica nacional. O ní­tido retrato da nova batida de Lisboa que resulta do cruzamento dos trabalhos lançados por esta editora representa uma das mais vigorosas propostas musicais do presente, no sentido em que avança ao mundo uma música profundamente radical e resolutamente única, mas cujas ondas de choque têm ressoado nas mais variadas latitudes, inspirando trabalhos em estúdios caseiros de Tóquio a Bogotá, de Brixton à  Amadora.

Sonhos & Pesadelos, estreia de Dj Lycox em nome próprio, é também o segundo álbum da Príncipe em 2017, depois de Ní­dia é Má, Nídia é Fudida, sinal inequí­voco que a urgência que esta música sempre carregou no seu ADN começa também a sintonizar-se com uma ambição discursiva mais pronunciada.

A audição mais “clínica”de Sonhos & Pesadelos revela o mapa dessa ambição discursiva já referida: a abertura com “Weekend” funciona quase como manifesto revelando uma apetência melódica cuidada, uma capacidade orquestral relevante, com diferentes camadas de texturas sintetizadas a sustentarem o que soa a sample levantado de um CD de baile cabo-verdiano dos anos 90; “Galinha” acrescenta vigor de graves à  equação melódica; e “Domingo Abençoado” é uma entusiasmante leitura das normas rí­tmicas da house mais funda cujo único defeito – lá está… – é não se prolongar até ao infinito mercê dos seus frustrantes 2 minutos de duração; com “Virgin Island”, Lycox centra-nos no “kuduro continuum”, mas a projeção é definitivamente futurista; depois, tanto “Nichako” como, sobretudo, “La Java” são constituí­dos como munições capazes de destruir qualquer pista, verdadeiros rolos compressores ao serviço do abandono através das frequências debitadas pelo sistema de som: ambas funcionam com eficácia hipnótica se o volume de audição for considerável; “Parabéns Moh Baba aguarda urgente atenção de um qualquer criativo publicitário que procure a banda sonora perfeita para nos vender mais um veí­culo de perfil citadino, perfeita na sua capacidade de ilustrar uma modernidade cromada e elegante; o tema coletivo – com input de PuTo NeLo, Puto WilsoN e MIX-Bué“ – “Quarteto Fantástico” é uma desbunda kudorizada até à última casa, caótica mas demolidora; e, finalmente, a maravilhosa dupla de temas que é “Sky” e “Solteiro” (este a verdadeira piéce de resistance do álbum, nos seus orgulhosos e gloriosos 4 minutos e seis segundos), duas amostras de que é possível combinar todas as pistas avançadas anteriormente – “ imaginação melódica, capacidade orquestral, eficácia rítmica, vénias à  tradição e ousadia inventiva -“ em temas que parecem já ser de um qualquer outro lugar, certamente uma fantasiosa projeção em que o subúrbio lisboeta e a periferia parisiense (onde Lycox agora reside) se cruzam com a vibração urbana global que se estende de África à  Ãsia e daí­ às Américas e provavelmente só parando no Espaço…

Texto de Rui Miguel Abreu

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Francisco Vaz Fernandes
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