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Bordalo II: no fim da linha

A luz incandescente revela um espaço de trabalho. Entre latas de spray, tampas de plástico e restos de contentores, conhecem-se os cantos do atelier de Artur Bordalo. O primeiro de três. O artista, organizado no seu pequeno caos, prepara três peças da série Half-Half para apresentar em Miami, nas Wynwood Walls.   Do espaço entrópico, rodeado de paredes coloridas, passamos para uma sala completamente antitética: uma divisão mais pequena, com luz natural, apenas ocupada com um banco e duas cadeiras. O cenário ideal para dar começo à conversa com o artista, mais conhecido por Bordalo II, segundo de uma dinastia iniciada pelo seu avô, “um pintor clássico de Lisboa”, revela.Bordalo, o SegundoArtur não consegue delinear o começo da sua paixão pelas artes plásticas. “É algo que existe em mim desde que me lembro de existir”, confessa. A figura do seu avô jogou aqui um papel importante. O artista passou desde cedo muito tempo em casa do avô, em especial no seu atelier, a pintar e a experimentar materiais. “As primeiras noções de pintura, de materiais, todas essas noções básicas que um artista deve ter, foram todas dadas por ele”, recorda.
Inspirado pelas suas vivências e pelo mundo que o rodeia, Artur refere que cada série de trabalho pressupõe uma reflexão diferente. Olhando para as peças da série “World Gone Crazy”, Bordalo relembra que a interação entre as várias personagens tinha que ser pensada, de forma a criar “uma série de relações”. Já nas obras “Big Trash Animals”, onde o artista recria animais em grande escala com desperdício humano, o processo parte de uma imagem ou uma referência, “e guio-me por aí até conseguir chegar à imagem final da peça”, prossegue.
O processo de criação nem sempre é linear. Bordalo relembra a peça que fez em alto mar, perto da ilha de Aruba. A falta de meios e a instabilidade do local foram fatores que complicaram todo o processo de expor a peça num navio abandonado. “Tivemos que montar andaimes dentro de água” – explica – “mas as ondas não ajudavam, sendo que vinha uma e desfazia praticamente tudo aquilo que estávamos a fazer”.
Quanto às suas referências artísticas, Artur realça de imediato dois nomes: o francês Farewell, e Sebastião Salgado, que, nas suas palavras, é “muito mais que um artista, um humanista”. Neste sentido, realça a responsabilidade daqueles que expõem e adquirem visibilidade na rua de “lutar por um mundo melhor, ajudar na educação da sociedade e na sensibilização em relação àquilo que está a acontecer”. “A mudança não depende de nós percebermos que tem de haver a mudança, depende de nós metermos as mãos na massa e começarmos a mudar os nossos hábitos gradualmente”, garante.

Bordalo II no seu atelier

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Para lá do valor estético da obra

Mais do que a estética, Bordalo II preza pelo enriquecimento pessoal trazido pelas suas obras e pela mensagem que pode vir a passar. Nos Açores, Artur teve a oportunidade de criar várias peças, aquando de um festival de street art. Para o artista, as experiências com a população local foram essenciais. Recorda a sua estadia em Rabo de Peixe, onde esteve a trabalhar de perto com as crianças, que inicialmente não o deixavam trabalhar e no fim revelaram-se aliados no processo de criação. “O resultado final, esteticamente, não foi para mim a peça que idealizava, mas acho que toda a parte social que aconteceu à volta daquele processo foi muito mais enriquecedor”, salvaguarda.
Foi durante essa estadia nos Açores que nasceu a série “Big Trash Animals”. Perto de S. Miguel, Artur não ficou indiferente ao cenário que encontrava nas rochas, onde as crianças apanhavam caranguejos. A partir de um armazém abandonado, o artista plástico recolheu uma carcaça de um barco e algumas peças de carros. Concebia assim a primeira obra da série: “um caranguejo gigante, feito de material robusto, de desperdício humano, um caranguejo que se pudesse defender dele mesmo e dos miúdos”, descreve.
Ainda olhando para trás, Bordalo recorda a sua passagem pelo Haiti, um sítio, relembra, “muito pobre”, numa experiência que retrata como tendo sido “muito mais interessante do que ficar num resort”. “Acho que levar o meu trabalho a esse tipo de sítio, onde possa haver também uma componente mais social, para além da parte mais ecológica que está sempre presente no meu trabalho, é provavelmente aquilo que mais me motiva.”

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Attero: do “fim da linha” para Xabregas

Do reportório de Bordalo II surge a exposição Attero. “É um nome interessante porque está próximo de ‘aterro’, o ir ao fim da linha buscar aquilo que acabou e transformar em algo de novo”, comenta. Trata-se da primeira exposição do artista em Xabregas que, devido à popularidade, foi estendida por uma semana. Attero “é um apanhado” daquilo que Artur tem vindo a criar nos últimos anos. Tem peças nunca antes expostas, obras de séries novas, vídeos e instalações. Bordalo reconhece que a exposição tem superado as expectativas. Sabe que à porta se estenderam longas filas de espera e diz ficar contente com o facto de as pessoas esperarem, “porque mostra que estão interessadas não só pela arte em si, mas provavelmente também pela mensagem, que é algo que tem cativado o público”.
O feedback do público confere uma sensação a Artur de estar mais próximo do público do que expor na rua, “porque há muito mais gente a deixar a sua opinião e a falar com pessoal da produção que está lá a tempo inteiro”. O artista confessa que a exposição tem o potencial de passar a mensagem que pretende, no entanto, espera “que também mude alguma coisa, além de passar a mensagem”. “Eu e a equipa que me ajudou a fazer todo este evento trabalhámos de forma imparável para que fosse uma exposição com visibilidade e com sucesso”, assenta

“As Belas Artes não foram um desperdício” 

Bordalo não esconde o seu percurso. Decidiu deixar a sua licenciatura na faculdade de Belas Artes, ou como melhor explica, “foram eles que decidiram”. “No fundo foi uma decisão de conjunto”, sintetiza. Artur foi suspenso por “falta de aproveitamento” e foi então que decidiu que “nunca mais lá voltava”; um pouco como se a faculdade tivesse dado um empurrão e Bordalo tivesse seguido sem oposição.
Contudo, Artur nega que a sua passagem nas Belas Artes tenha sido um desperdício, “muito pelo contrário”. “Aprendi imensa coisa não seguindo aquele percurso convencional de fazer o primeiro, o segundo, o terceiro e o quarto ano e ir à minha vida”, explica, acrescentando que passou dois anos no primeiro ano, três no segundo e um ou dois no terceiro. Os ateliers de cerâmica, mosaico e vitral, unidades curriculares de menos créditos, preenchiam os seus dias: “perdia-me tardes inteiras até a faculdade fechar”.

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Quando questionado sobre a possibilidade da teoria poder ser um entrave ou um problema na formação dos artistas, Bordalo relativiza na sua resposta: “Para mim seria, mas nós não somos todos iguais”. A faculdade é, no seu ponto de vista, “uma ferramenta”. “Não te vai salvar enquanto artista, nem vai arranjar um trabalho”, adverte. Dentro da instituição, Artur refere a importância do papel da “irreverência que todos os artistas têm”, no sentido de saber “dizer que ‘não’ a isto ou aquilo e seguir um pouco ao contrário daquilo que nos põem à frente”.
Bordalo não quer servir de exemplo: “só isso muita responsabilidade e a minha carreira ainda é muito recente”. Costuma dizer que o seu trabalho “começou anteontem” e que, tal como ele, muitos outros também tiveram imensas ideias e potencial para fazer coisas para além do que é académico.
Quanto ao próximo passo de Bordalo II, o artista não hesita: “sobreviver”, afirma entre risos! Artur pretende continuar a explorar as séries que tem vindo a criar e a produzir novos projetos. Há muita coisa que quer fazer, reconhece. “Um dos meus objetivos enquanto artista é não me prender a uma fórmula e explorar aquilo eternamente enquanto funcionar. Acho que isso é extremamente redutor”, defende. Explorando novos caminhos, Bordalo não pensa desprender-se do seu papel ativista. Sabe que tem tido o seu impacto, mas, admite “isso não muda o mundo, não muda nem 0,00001, mas nós temos de começar por algum lado”. Artur sabe o poder da arte na divulgação e na educação da sociedade, e por isso conclui que “o trabalho de todos os artistas que têm algo a dizer e que tem uma componente crítica em relação aos problemas da atualidade

Texto de João Patrício
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Francisco Vaz Fernandes
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