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Rui Valério

 

Rui Valério apresenta, até fevereiro, um conjunto de peças e desenhos na Kubik Gallery no Porto.  A exposição, que dá pelo nome “Sonatas e Interludes”, integra som e imagem – como vai sendo hábito no trabalho do artista – e propõe uma exploração do desenho nos domínios de uma possível interpretação musical, como se de uma pauta se tratasse. O corpo de desenhos, manifesta, em alguns dos casos, fortes semelhanças com as partituras de Xenakis. As linhas existentes nas folhas de pauta, que servem de base para o desenho, são muitas vezes suprimidas e estabelecem padrões, evocando, inevitavelmente o silêncio.

Segundo Cage: “Não existe silêncio. Está sempre a acontecer qualquer coisa que faz com que se produza algum tipo de som”. Algumas partituras do artista contêm barras escuras (fita magnética) e brancas, feitas sobre papel de pauta.A “Lecture on Nothing” de Cage, parece implícita nas peças presentes ao longo da exposição. É relativamente fácil encontrar o tema do silêncio e lembrar Cage: como o grupo de telas onde foram pintadas letras que compõem, dispersas, a palavra “silent”. 

A apropriação nas peças de Rui Valério mantém-se, deliberadamente ou não, como é possível observar na peça “Fade in/Fade out – Brief Sound for Flavin”. Esta peça surgiu sem o artista ter tido a intenção prévia de evocar Dan Flavin. No entanto aproveitou o facto para aplicar, mais uma vez, a ténica da apropriação, tendo mesmo mencionado, no título da peça, o nome de Flavin. A peça de Valério alude a obra de Flavin, “”, pela semelhança do material usado. O artista usa lâmpadas fluorescentes, alimentadas por balastros ferro-magnéticos, que conferem as lâmpadas a possibilidade de produzirem luz intermitente. Formalmente as lâmpadas encontram-se expostas sobre a parede, dispostas verticalmente, em fileira e vão diminuindo, em escada, de tamanho, acentuando as semelhanças com a peça de Flavin. Outras peças apresentam a mesma semelhança com as obras de Flavin, como a peça “Stereophonic Waveform”, que pelas lâmpadas fluorescentes posicionadas paralelas umas às outras lembram outra peça de Flavin, “Dorothy and Ray Lichtenstein or not seeing anyone in the room” de 1968. 

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  A exposição de Rui Valério, é toda ela um trabalho de história de arte, uma vez que evoca obras do passado, nomeadamente o minimalismo, que tanto repudiou, nos idos anos 60, o gestualismo inerente ao expressionismo abstrato. Greenberg defendia esta aceção historicista da arte, na medida em que só depois de absorver as obras do passado é que os artistas poderiam produzir boa arte. Rui Valério reforça assim esse diálogo com a história de arte ao pedir “emprestadas” algumas peças dessa história. Não sem antes insuflar-lhes novas propriedades e reinventar novas funções para as mesmas. 

texto de Carla Carbone

Kubik Gallery

Rua da Restauração, 2, Porto

Até 3 de Fevereiro 2018

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Francisco Vaz Fernandes
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