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O Género na Arte

Quem acompanhou os anos 90 certamente se deparou com a questão da identidade na qual o género ganhava grande relevância no discurso artí­stico da época. Na prática artí­stica alguns reagiam a questões prementes colocadas na esfera pública por algumas comunidades, grupos sociais que assim foram ganhando direitos numa sociedade que se queria mais tolerante. Estava criado um contexto social fértil para o desenvolvimento de narrativas artí­sticas em torno do “eu”, que respondiam a uma crise de representação no campo artístico. Ou seja, uma sociedade que preferia os discursos diretos -sujeitos a falarem sobre si- aos discursos daqueles que falavam sobre o “outro”. No máximo, o “eu” era o novo “outro“, limitando a proliferação de estereótipos e exotismos em que caíam facilmente as representações do “outro”. Os discursos pessoais vinham assim estilhaçar e enriquecer a realidade nomeadamente quando se falava do género.

João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, “wedding”, fotografia

1 JPV_NAF_The Wedding(2017)

Duas décadas passadas, a exposição, Género na Arte, comissariada por Aida Rechena e Teresa Furtado, que decorre no Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, vem colocar no contexto nacional a pertinência desses discursos. Tem o mérito de juntar alguns dos nomes que introduziram a questãoo de género no discurso artí­stico português, como é o caso de Alice Geirinhas, Ana Perez-Quiroga, João Pedro Vale e Vasco Araújo; com nomes da nova geração – Horácio Frutuoso, Carla Cruz, Thomas Mendonça e João Gabriel. E porque se trata de alargar fronteiras, esta é igualmente uma exposição interdisciplinar que junta Gabriel Abrantes e Miguel Bonneville, artistas que se têm afirmado no cinema e na dança, respetivamente.

Horácio Frutuoso, vista da instalação

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Na obra mais antiga desta exposição, “Diva, a Portrait”, 2000, de Vasco Araújo, encontramos a encenação de um camarim de uma cantora de ópera ao qual o artista, travestido, dá corpo. Alertando-nos para a multiplicidade de “eu” que um sujeito pode incorporar, esta obra é um ponto de partida para observar artistas que trazem o domínio privado para o espaço público, dando-lhe uma dimensão polí­tica, como é o caso da obra “palhaço rico fode palhaço pobre” 2016, performance de João Pedro Vale e Alexandre Ferreira; ou “Inauthentic Male”, 2003, fotografia de Carla Cruz; ou ainda “Sterotype poof! is gone”, 2017, instalação de Ana Perez-Quiroga. Numa variação mais poética, são ainda de referir os registos gráficos de Horácio Frutuoso, compostos por jogos de palavras que encontram o seu espaço nas paredes do museu e que são como pequenos desabafos próprios de um diário í­ntimo, que ganha uma ressonância universal ao sabor da interpretação de cada de nós. Reescrever a história de de Brancusi, uma escultura com evidente forma fálica que tinha como intenção ser o busto da Princesa Marie Bonaparte, é um pretexto para Gabriel Abrantes relembrar o início do modernismo e o contributo que o reconhecimento da sexualidade da mulher como um espaço próprio ofereceu para a construção dessa mesma modernidade.

Texto de Francisco Vaz Fernandes

MNAC Chiado

Rua Serpa Pinto, 4 Lisboa

Até 11 de Março de 2018

Thomas Mendonça, vista parcial da instalação com objectos e desenhos

4 Thomas Mendonça

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Still vídeo de Breve História de Princess X de Gabriel Abrantes

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Palhaço Rico fode Palhaço Pobre, deJoão Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, performance

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Francisco Vaz Fernandes
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