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Alexa Santos- Queering Style

Alexa apresenta-se: “Eu sou uma mulher lésbica, queer, genderfluid”. Apaixonada por direitos de pessoas LGBTQI (lésbicas, gays, bisexuais, trans, queer e intersexo) há cerca de dez anos, a antiga aluna de Serviço Social numa instituição católica saltou da academia para o voluntariado em instituições LGBTI portuguesas, e acabou por voltar aos livros na Universidade de Leeds, onde concluiu um mestrado com o tema: “: Práticas e Discursos de Assistentes Sociais em Portugal no trabalho com jovens LGBTQ+”.

Ao longo da sua experiência enquanto assistente social, a jovem chegou a intervir diretamente com crianças e jovens numa residência de acolhimento e também trabalhou com refugiados e imigrantes. “podes tirar a assistente social do serviço social mas nunca tirar o serviço social da assistente social”, admite.

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Queering Style: uma plataforma que “não é de ninguém, é de toda a gente”

É nesta etapa da sua vida que Alexa dá vida à plataforma Queering Style, fruto “da necessidade de ter um espaço interseccional que fosse acessível a todas as pessoas que se pudessem identificar com o que está fora da heterossexualidade das identidades e expressões de género binárias”, afirma. Além disso, a cara por detrás do site conta que o criou “por sentir falta de encontros com pessoas como eu que existissem através de uma prática diária de transfeminismo e discurso e experiência queer em Portugal”.

O Queering Style é uma plataforma que permite abrir a discussão de vários temas: “ideias, pensamentos e provocações são bem-vindas. Sarcasmo, críticas e questões, também.”, pode ler-se na missão do site. Trata-se de uma plataforma que pretende juntar uma comunidade aberta, num espaço que “não é de ninguém, é de toda a gente que se identifique com o projeto”, continua a missão.

Alexa não considera que faltem canais de comunicação para a comunidade LGBT+, mas aponta antes para a falta de “canais efetivamente queer e transfeministas. Que critiquem sexismo, questionem assédio, que vão para além do obvio, da necessidade de entretenimento e de normalização (pinkwashing) da diferença”, descreve.

Colocando o dedo na ferida, a criadora do site afirma que “estamos muito comprometidos com o status quo”. “O discurso ‘nós somos iguais aos outros’ não só não é real como é curto para aquilo que são as lutas contra o que oprime pessoas LGBTI”, prossegue. Embora considere “válido” ter um discurso “limpo” para um público mainstream que é tido como uma franja que ainda não está preparada para a plenitude da comunidade LGBT+, é ao “invisibilizar lutas e identidades que muitas vezes morrem pessoas”, aponta.

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Bordado a bordado, contra o patriarcado

Além do Queering Style, Alexa integra o grupo das Bordadeiras Subversivas, um coletivo de pessoas queer, LGBT e feministas, que partilham entre si o gosto de bordar, e que veem o bordado como uma “ferramenta de testemunho oral e aprendizagem pessoal feita coletivamente”, explica Alexa

Desengane-se quem acha que este é apenas mais um grupo de bordadeiras, que se junta para fazer meros bibelôs. As Bordadeiras Subversivas juntam-se com o intuito de ocupar um espaço tradicionalmente heterossexual, e de trazer esta forma de arte a pessoas queer, trans, LGB e feministas. “Queremos mostrar que podemos ser quem somos nesta arte e que as nossas ideias podem também estar espelhadas nesta arte que se entende como tradicional, ultrapassada, demasiado trabalhosa”, sustenta.

Portugal, 2018: muito trabalho pela frente!

Olhando para o contexto português, a jovem reconhece que atualmente é mais fácil ser-se umx jovem LGBT+ no país quando comparado com as gerações anteriores. Apesar das dificuldades e da violência, “o mundo não acaba na porta ao lado, vai até outras portas de um mundo a que antes não se tinha acesso”, confere. Para Alexa, ser-se jovem LGBTQ+ é também servir de inspiração para os outros não sabem lidar com as diferenças, quer seja através da mudança de mentalidades, quer simplesmente pelo “ato de existir”.

Contudo, há ainda questões gritantes por resolver. Alexa aponta em primeiro lugar a importância de continuar o trabalho em direção à autodeterminação de género que, apesar das várias conquistas a nível legal, enfrenta ainda um longo caminho a nível de mentalidades e de trabalho social. O combate à violência de género, à desconstrução de papéis de género e às homofobias internalizadas é outra questão sublinhada.

A questão da solidão e do autocuidado nas lutas LGBTQ+ e feministas. Alexa refere os casos de pessoas LGBTI idosas, ou que fazem o coming out tardiamente, e para as situações dxs que vivem em zonas do Interior do país onde “a solidão e a falta de comunidade é uma realidade”. “A verdade é que tudo o que se faz coletivamente começa em cada pessoa e se cada pessoa não está bem traz isso para o coletivo”, e neste sentido, diz, “o autocuidado não é uma forma de existir individualizada, mas uma forma de participar melhor coletivamente.”

Texto de João Patrício

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Francisco Vaz Fernandes
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