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Entrevista: Alexandra Moura

Facilmente se imagina nas ruas electrizantes mas organizadas de Tóquio mas foi o Príncipe Real a morada que Alexandra Moura escolheu para abrir a sua loja. Depois de um ano de papéis e de dores de cabeça, farta das burocracias e dos entraves deste país de palmo e meio, a designer revela-nos que a abertura está para breve.

O projecto foi deixado a cargo do arquitecto Rui Neto e promete surpreender os que por lá passarem mas, por enquanto, o espaço ainda é uma sombra do lugar em que se vai transformar. Por isso, ainda não pudemos entrar no mundo de Alexandra mas deixámos à sua escolha o local do encontro. Foi numa daquelas tardes quentes de Setembro, que nos lembram que o Verão ainda não terminou, e foi sentada à sombra das árvores de Campo de Ourique que encontrámos a designer que sonhava ser cientista!

Escolheste Campo de Ourique para nos encontrarmos. Identificas-te muito com a vida de bairro e com a proximidade entre as pessoas?

Adoro. A escolha de Campo de Ourique teve realmente a ver com o conceito de bairro, de proximidade, de familiaridade. É esse sentimento de genuídade e de simplicidade que me atrai imenso, principalmente numa cidade como Lisboa.

Também procuras ter esse tipo de proximidade com os teus clientes, no teu trabalho?

Sempre, sempre… Aliás, para o meu trabalho funcionar é preciso que eu tenha essa proximidade com os clientes de forma a perceber as necessidades deles. O feedback que recebo em relação ao meu trabalho é extremamente importante e válido, todas as opiniões são importantes e eu gosto de acatar tudo para tentar perceber, quanto mais não seja, a cabeça, as necessidades e os gostos das pessoas. Isso, obviamente, ajuda em todo o processo. Claro que não crio a pensar em determinado cliente, as criações são coisas muito minhas e espero que as pessoas se identifiquem com elas mas é muito importante haver essa proximidade.

Vais ter essa proximidade na tua loja nova?

Sim, é uma loja-atelier. A vontade de me aproximar do cliente e de estarmos todos envolvidos é que me fez abrir a loja. Este espaço vai-me permitir conhecer melhor as pessoas… Creio que é mesmo essa a parte mais deliciosa.

Nunca te imaginaste a trabalhar para um mercado de massas?

Não. Acho que é um desafio e uma experiência, é uma mais-valia passarmos pelo trabalho numa grande marca ou na industria mas, a nível de projecto pessoal e do que eu quero fazer na minha vida é, sem dúvida, a possibilidade de estar frente a frente com as pessoas, conhecer os seus nomes, saber quem elas são. É uma relação que eu considero extremamente importante para nos valorizarmos, também, como profissionais. E, para mim, a moda de criador faz muito mais sentido do que trabalhar numa grande marca, onde se trabalha para uma massa mas nunca se consegue falar com as pessoas.

Uma das grandes inspirações dos criadores nos últimos tempos tem sido o street style, que antes era mais caro à indústria. Tu foges um bocadinho a essa inspiração?

Fujo um bocadinho, mas não de forma propositada. Acho que sou tão intuitiva e instintiva no meu trabalho, fecho-me muito no meu casulo quando estou a desenvolver uma colecção e não consumo nada que tenha a ver com moda nessas alturas. É evidente que as pessoas na rua me inspiram imenso. Se há um hobby que eu tenho e que adoro – e espero nunca perder – é sentar-me na rua e simplesmente observar as pessoas, não de uma forma critica mas para perceber porque é que aquela pessoa fez aquela mistura ou entender o porquê de usar assim determinada peça. Acho que estudar o comportamento humano, ver como as pessoas se vestem e quais as expressões corporais que adoptam com determinado tipo de roupa é tão engraçado que é, obviamente, um grande foco de pesquisa para mim. Agora, não vou directamente à moda de rua para tirar influências, não! Penso que é óptimo quando as peças dos criadores saem para a rua e não o contrário. Se calhar, por isso é que eu gosto tanto de me inspirar em temas e não em tendências. Porque se tornam muito mais intemporais, a durabilidade das peças é muito maior. E acho fantástico quando as pessoas reinterpretam aquilo que nós criamos.

Existe alguma situação de interacção das tuas clientes com as tuas peças que te tenha marcado de forma especial?

Assim de forma alterada, só uma, já vi várias pessoas usarem algumas peças de forma arrepiante… Mas já vi uma cliente com um vestido meu da colecção das sombras – um vestido de riscas com imensa malha – e ela conseguiu-lhe dar ali umas voltas que criou um panejamento fantástico à frente!  Eu achei aquilo delicioso e inspirou-me para uma nova peça noutra colecção.

No entanto, as tuas peças são muito fortes. Lembro-me, por exemplo, do padrão da colecção micro-olhar, não deve ser fácil transformar essas peças…

Julgo que, quem quer essas peças é por elas serem assim. Acho que, realmente, há peças que não podem ser tocadas, devem manter-se intocáveis para não perderem a forma, a silhueta ou o padrão.

Para ti, a moda é funcional ou é uma forma de arte?

Há vários tipos de moda. Há uma mais comercial e mais vestível e há moda que é, sem dúvida, arte. Essa moda é aquela que move grandes conceitos e que exige um trabalho especial sobre as peças. Há pessoas que trabalham com a moda de uma forma completamente artística. Há moda que é arte!

E achas que, em Portugal, esse tipo de moda é viável?

Penso que sim, sem dúvida. Já existe essa consciência por parte das pessoas em interpretar a roupa e fazer dela uma coisa especial. E essas pessoas podem consumir uma moda um bocadinho mais artística. Por mais artística não quero dizer espampanante, nada disso. Até porque, hoje em dia, o desafio é a nova simplicidade, é criar um visual simples com rigor e elegância. A moda artística pode ser perfeitamente vestível.

Tens notado uma evolução do público e da imprensa em relação à moda portuguesa?

Humm… que pergunta! Eu acho que as pessoas têm muita vontade mas não têm grande coragem. O público é demasiado exigente e demasiado ingrato em relação ao trabalho dos criadores porque tem muito aquela necessidade de exigir mais e melhor mas, depois, além de não consumir o seu trabalho, parece que nunca está satisfeito. Apesar disso, acho que há uma evolução, as pessoas estão muito mais abertas, começa a haver uma certa cultura de moda e a existir algum público mas ainda não é suficiente. Ainda há muito aquela ideia de que o que se faz lá de fora é que é bom e que nós estamos ainda agora a começar. E há excelentes criadores e trabalhos extremamente consistentes em Portugal, além de bons exemplos de imensas pessoas que estão a dar cartas lá fora. A produção nacional, quando vai lá para fora, é muito bem aceite, é vendida, é usada e cá, ainda há um bocadinho o estigma do é português.

Já apresentaste colecções em várias partes do mundo. Qual foi a apresentação que gostaste mais de fazer?

Elas são todas muito curiosas por serem, precisamente, tão diferentes. Alguns desfiles são muito bem organizados porque os países têm alguma cultura de moda, outros é delicioso perceber que eles não percebem nada daquilo mas fazem um esforço enorme para realizar as coisas com toda a boa vontade. Todas as apresentações foram interessantes no seu ponto de vista e no seu espaço geográfico como país e como cultura.

Como foi a aceitação da marca Alexandra Moura lá fora?

Para os que têm mais cultura de moda, foi uma aceitação bastante positiva. Mas para aqueles que não têm essa cultura também foi bastante boa porque ficavam maravilhados com tudo o que estavam a ver.

Já fizeste vários projectos que não estão ligados à moda. Vês-te como uma criativa ou como uma designer de moda?

Vejo-me como uma criativa que escolheu a moda para estar lá um bocadinho mais tempo mas acho fantástico quando aparecem outros projectos, que não de moda, porque, pessoalmente, preciso de me alimentar de muitas outras coisas para que a componente da moda funcione.

Temos assistido a um número enorme de parcerias na área da moda. Achas que os designers devem ter cada vez mais uma educação em várias áreas ou devem focar-se apenas num caminho?

Penso que devemos ter uma educação mais vasta. As parcerias são, sem dúvida, uma mais-valia. Juntar forças é juntar conhecimento e é criar produtos de qualidade e diferenciados.

Tens alguma parceria em vista para os próximos tempos?

Eu gostava de fazer imensas parcerias em diferentes áreas e agora, que vou ter uma loja, seria fantástico ter parcerias com várias marcas ou com várias pessoas que trabalhem noutro tipo de produtos, trazendo-os para a loja por forma a divulgá-los e a vendê-los. Neste momento, estou a trabalhar numa parceria de calçado mas há outras que desejo que aconteçam e vou trabalhar nelas.

Também na área da moda?

Não na área da moda, se entendermos por moda apenas o vestuário e o calçado, mas que entram no meu universo. Eu não consigo sobreviver só da roupa e dos sapatos, vivo de uma série de coisas à volta e todas elas fazem parte de um todo. Gosto de muita coisa! (risos)

Quando abres a loja?

Eu já gostaria que a loja estivesse aberta… Espero que abra em Outubro. É só mais um bocadinho e eu estou desejosa que isso aconteça, já se passou um ano de processos burocráticos e agora que tem de acontecer, já é muito tempo.

Sentes falta dessa plataforma enquanto designer?

Sem dúvida, sinto falta do meu próprio espaço, do espaço dos clientes, no qual qualquer pessoa pode entrar, ver, tocar, identificar-se com as peças. As sensações que se vivem numa loja são as mesmas de se entrar no mundo de uma pessoa.

O que nos podes revelar desse teu mundo?

Não vou revelar nada! A loja para mim é muito especial e a forma como foi concebida tem muito a ver comigo. Tem muito a ver com os meus conceitos… É um passeio pelo universo do meu trabalho, é fazer um percurso para descobrir as coisas. Não consigo revelar já porque vai ser daquelas coisas que, se eu tentar explicar, vai parecer uma coisa esquisita. Só entrando e vendo e circulando…

E se a porta da moda se fechasse?

Bem… Ir agora para as ciências implicava despender muito tempo, fazer outro curso seria exaustivo, ia demorar bastante até eu ser astrónoma ou bióloga, mas era um sonho. Não sei, sinceramente, nunca tinha pensado nisso… Também me identifico com a medicina alternativa, é uma área que me dá estrutura e força para aguentar o lado mais terreno das coisas e, quem sabe, poderia ser uma hipótese.

Foto.Pedro Janeiro

Texto e Styling. Margarida Brito Paes

Make up. BiaVerri

Modelo. Mafalda (Best)

Francisco Vaz Fernandes
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