Horário Frutuoso

Horário Frutuoso

Mais do que um artista, Horácio Frutuoso é um dinamizador cultural que foi capaz de aglutinar diferentes vontades, imprimindo pujança a uma cultura alternativa que nascia no Porto. De mudança para Lisboa, ou pelo menos entre as duas cidades, o mínimo que se espera é que tudo venha a acontecer a dobrar, num diálogo inter-geracional, como é comum nos seus projetos.

retrato

És um novo lisboeta. Como foi deixar o Porto onde imprimias grande dinâmica no espaço alternativo?

A vontade de viver em Lisboa já era antiga, entretanto surgiu a oportunidade de vir viver aí, onde já desenvolvia alguns trabalhos e onde tenho grandes amigos. Não sinto que tenha deixado completamente o Porto, mas precisava de me concentrar mais no meu trabalho enquanto artista e para isso tinha de sair da zona de conforto. Já surgiram algumas oportunidades com esta mudança. Gostava muito que o cruzamento entre os artistas das duas cidades fosse maior, há valências em cada uma delas capazes de contribuir muito para uma certa ideia de fortalecimento e valorização da arte portuguesa, e espero contribuir de alguma forma para que isso seja mais real.

De certa forma tens trabalhado bastante com a tua geração de artistas. Arriscas algumas ideias para defini-los?

É difícil não generalizar, porque existem contextos muito diferentes. Apesar de vivermos num período difícil, onde tudo é mais competitivo e efémero, temos uma série de meios que permite sermos mais informados e autónomos. A internet coloca-nos a um nível global é mais fácil acompanhar exposições que estão a acontecer fora do país, bem como o trabalho de diversos artistas e curadores, sendo até o possível estar em contacto com eles. Também viajamos mais, e a nível académico existem imensas oportunidades de fazer estudos noutros países. Contudo, há falta de iniciativas para a “afirmação” de uma geração. Não vejo nenhuma proximidade ou vontade de acompanhar o trabalho de uns dos outros, como o de artistas mais velhos. E isso seria importante, porque é complicado sobrevivermos apenas do nosso trabalho quando não há uma estrutura sólida que suporte os artistas e que os ajude numa fase inicial, o que acaba por levar a uma dispersão. Tenho tido muita sorte com as pessoas com quem me tenho cruzado e trabalhado, tanto da minha geração como mais velhos, que, em regra, são muito generosos e fazem questão de acompanhar o meu trabalho ou até de me envolver no trabalho deles. Nos projetos que desenvolvi, tentei sempre que isso acontecesse, acredito que seja muito importante que aconteça de forma regular. É saudável e todos nós ganhamos com isso de diferentes modos.

Self Portrait (clouds)_2016_photo_António Jorge Silva copy

Recentemente fizeste uma exposição onde o texto estranhamente se impôs. Quando é que apareceu e qual a importância da palavra no teu trabalho?

A literatura é uma grande influência no meu trabalho. Fui educado a ler muito e há sempre um livro que de alguma maneira tem uma importância especial na concretização de um projeto em que esteja a trabalhar. Para além disso, começo sempre a pensar um trabalho através de um processo de escrita: mais do que desenhos, os meus trabalhos surgem de palavras que escrevo ou que encontro e das quais me aproprio. Também tenho um grande interesse no universo editorial, com o qual já tinha colaborado anteriormente, mas, por uma certa vergonha ou vontade de querer manter esse lado mais reservado, acabava por materializar essas ideias em imagens ou objetos sem que o texto tivesse essa importância, ou aparecesse só muito pontualmente. Quando estava a preparar a exposição Black Dolphin com o Tiago Alexandre, em Julho nos Açores, para o Walk&Talk, mostrei-lhe algumas coisas que escrevi e que andava a experimentar, muito influenciado por trabalhos tipográficos e de poesia concreta, e ele acabou por me convencer a apresentar esses trabalhos, onde dava grande relevância ao texto. O mesmo aconteceu na exposição individual White Horse que fiz recentemente no Bregas em Lisboa. Olhando com alguma distância, sinto que são trabalhos muito mais crus e sinceros, como se me tivesse despido, e para mim isso é muito importante neste momento.

The Prayer_2016

Costuma-se dizer “para um homem se sentir realizado, deve fazer um filho, escrever um livro e plantar uma árvore”. Qual deles se parece neste momento mais relevante?

É curioso que esse dito afirma que a realização acontece no fazer alguma coisa que à partida vai prevalecer à nossa morte. É uma ideia que julgo estar muito próxima daquela que tenho sobre produção artística, embora esteja ligada a um sentimento paralelo de insatisfação. Pelo trabalho que tenho feito, e por se tratar de uma vontade que está a ser planeada, neste momento fazer um livro parece-me ser mais relevante.

Texto Francisco Vaz Fernandes

Imagens de trabalhos expostos na exposição White Horse na Galeria Bregas, em Lisboa

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