Paterson : a vida de todos os dias

Paterson : a vida de todos os dias

Junho traz às salas de cinema Paterson, que se apresenta como uma verdadeira celebração à vida de todos os dias.

O novo filme de Jim Jarmusch conta assim o dia-a-dia de um condutor de autocarros, Paterson (Adam Driver), que vive numa cidade com o mesmo nome, e que preenche os seus tempos livres escrevendo poemas. Se a premissa é simples, a história também o é: Paterson acorda, conduz o autocarro, janta com a mulher, passeia o cão, detém-se para uma bebida no bar e regressa a casa para recomeçar tudo de novo. Assim se vai desenrolando o seu quotidiano, numa repetição de cenários, movimentos e padrões entrecortados por pequenos detalhes que tornam cada dia díspar do anterior.

São estes momentos que alimentam os poemas de Paterson, que nos vão sendo desvendados aos pouquinhos, obedecendo ao próprio processo criativo. De facto, o tempo representa em Paterson um factor muito importante. A sucessão de cenas surge a um ritmo muito próprio, espaçado, desapressado, dando a oportunidade ao espectador para se deliciar e imergir em cada cenário e diálogo, de forma a poder, também ele, admirar a sua beleza e saborear a paz que transmitem.

O filme apresenta-nos igualmente um jogo constante entre rotina e fragmento, desde o todo que é a vida de Paterson, personagem omnipresente e através da qual o mundo nos é apresentado às fracções, alternando com as vidas daqueles com quem se vai cruzando, e que vão surgindo de uma forma quase voyeurística, com as suas próprias vidas e problemas, sem que Paterson tenha alguma interferência nelas. Não há, no entanto, fricção entre os dois lados. Pelo contrário, eles parecem complementar-se, cada um deles ampliando a importância do outro.

Com uma grande simplicidade e candura, Paterson mostra-nos, assim, a beleza das pequenas coisas: dos gestos repetitivos que são a base da nossa estabilidade, dos pequenos detalhes insignificantes que distinguem a nossa vida dos demais, das pessoas com quem aleatoriamente nos cruzamos todos os dias e que por algum motivo acabamos por levar connosco. No final do filme, o espectador depara-se com uma sensação de regozijo e um raro encantamento pela sua própria vida.

Paterson estreia nas salas de cinema Portuguesas a 29 de Junho.

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